Pela tua cara tu já descobriste tudo, Dina Maria. Mas vou fazer de conta que não percebi. Vou, como sempre, tirar o casaco e calçar os chinelos. Vou sentar-me, como faço todos os dias na poltrona vermelha de braços gastos a fumar o meu cachimbo com a atitude semi – apática que te põe os nervos em franja, enquanto me contas o teu dia vazio de conversas de esquina.
Pela cara de cão que fizeste quando entrei, andas a fuçar a gaveta do fundo da escrivaninha e encontraste a caixinha de charutos que guarda muito mais que pequenos canudos de ervas estrangeiras.
Não devias ter feito isso. Se não fosse o teu feitio canino e a tua curiosidade borbulhante que te consome as vísceras tinha ficado tudo bem. Nunca tinhas percebido que eu me casei contigo porque sou estupidamente responsável, e não te ia deixar no mundo com um filho que fiz numa noite de arraial ébrio. Que o meu primo Serafim, é que gostava de ti, e eu com dezoito anos gostava de conseguir ter o que os outros queriam.
Nunca tinhas descoberto que tu e o Fernando não são a minha única família, mas agora que já sabes…
Escusas é de estar para aí com o nariz como uma pistola porque descobriste uma certidão de nascimento de um filho meu com outra mulher, como se pensasses que eu não sei das tuas andanças com o Tino das carroças.
E agora o que queres fazer? Vais gritar comigo com essa tua voz de cana rachada, que há trinta anos me fura os tímpanos? Ou vais, como eu, fazer de conta que não sabes de nada?
Já não me interessa, só não digas nada ao Fernando. Eu conto-lhe um dia quando ele tiver filhos, porque assim ele vai saber o que sente um pai, que apesar de ser um pai rural também tem sentimentos. Que apesar de lhe ter dado uma coça de cinto quando o apanhei a fumar aquelas merdas esquisitas dos filmes americanos, gosto dele como se gosta do que sempre foi nosso.
Por isso, Dina Maria, fecha essa boca suja e não lhe digas nada.
Pela cara de cão que fizeste quando entrei, andas a fuçar a gaveta do fundo da escrivaninha e encontraste a caixinha de charutos que guarda muito mais que pequenos canudos de ervas estrangeiras.
Não devias ter feito isso. Se não fosse o teu feitio canino e a tua curiosidade borbulhante que te consome as vísceras tinha ficado tudo bem. Nunca tinhas percebido que eu me casei contigo porque sou estupidamente responsável, e não te ia deixar no mundo com um filho que fiz numa noite de arraial ébrio. Que o meu primo Serafim, é que gostava de ti, e eu com dezoito anos gostava de conseguir ter o que os outros queriam.
Nunca tinhas descoberto que tu e o Fernando não são a minha única família, mas agora que já sabes…
Escusas é de estar para aí com o nariz como uma pistola porque descobriste uma certidão de nascimento de um filho meu com outra mulher, como se pensasses que eu não sei das tuas andanças com o Tino das carroças.
E agora o que queres fazer? Vais gritar comigo com essa tua voz de cana rachada, que há trinta anos me fura os tímpanos? Ou vais, como eu, fazer de conta que não sabes de nada?
Já não me interessa, só não digas nada ao Fernando. Eu conto-lhe um dia quando ele tiver filhos, porque assim ele vai saber o que sente um pai, que apesar de ser um pai rural também tem sentimentos. Que apesar de lhe ter dado uma coça de cinto quando o apanhei a fumar aquelas merdas esquisitas dos filmes americanos, gosto dele como se gosta do que sempre foi nosso.
Por isso, Dina Maria, fecha essa boca suja e não lhe digas nada.