15.2.06

Ponto Final

Sempre consegui descodificar intenções e emoções. Às vezes não acontece à primeira, mas acontece sempre. Chama-lhe intuição, sexto sentido… o que quiseres.
Só sei que é verdade e que nunca me engano.
Por isso, o teu discurso elaborado do último dia não surtiu o efeito desejado. Não posso acreditar numa única palavra que saiu a flutuar da tua boca quando os teus olhos diziam exactamente o contrário.
Só ainda não consegui compreender porque insistes em partir quando a tua vontade é ficar.
Sei que o tempo começa a escassear e que mais cedo ou mais tarde vai chegar o dia do ponto final.
Quero que saibas que na vida não existe a tecla delete, e que tudo o que fazes e dizes fica gravado a tinta permanente. Não se pode voltar atrás.
Por isso pensa bem. Pensa duas vezes.
Se vais fazer estritamente o contrário daquilo que queres, fá-lo de uma vez. Não precisas de explicar. Não se pode explicar aquilo que nem nós próprios compreendemos.
E eu prefiro ficar dias a ressacar a tristeza do que anos com cara de ponto de interrogação. Prefiro varrer os pedaços de ti que deixaste pela casa, do que passar as noites a tentar juntá-los de novo.
Há muito que aprendi que existem tarefas inglórias logo à partida e pedir-te muito que fiques é uma delas.
Então decide rápido. Vai depressa porque quero desligar-me de ti. Não posso manter ligações com alguém que prefere abdicar do que lutar.
Preciso de ficar sozinho, pois é na solidão que as pessoas renascem.
Não posso ficar à espera que o vento leve sozinho as cinzas que deixaste. Vou pegar nelas e atira-las janela fora. As cinzas e tudo o que era teu e deixaste cá dentro.
Acho que já me preparei para rasgar os laços e aceitar o inevitável dia do ponto final.

6.2.06

A Praia


A mesma praia de sempre. Onde tudo acontece. Mais uma vez, deixei-me cair nas suas redes. Naquele lugar há sempre qualquer coisa à minha espera.
O Mar estava como todos os dias: bravo e imenso. O Sol estava prestes a baixar. O vento frio e rasgante, como de todas as vezes que lá fui.
Até que ela chegou. Impassível. Como se o Mar a trouxesse. Vinda do nada, e sem motivo. Apenas tinha chegado.
Sentou-se no areal, um pouco mais à minha frente. Pernas estendidas e alma elevada.
Desenhava rotas imaginárias na linha do horizonte. E eu sabia-a já minha. Como quem conhece o que é seu por direito.
Vestida de branco e pele morena. Os cabelos tinham mais ondas que o Oceano inteiro.
Ergui-me em segundos e caminhei até ela. Sentei-me ao seu lado e respirei fundo, tentando absorver algo a seu respeito.
Por momentos, dois olhos verdes fitaram-me, sorrindo.
O vento soprou mais forte e eu senti o cheiro dos seus cabelos. Um cheiro doce, quase flores, quase canela.
O Sol tinha desaparecido quase por completo, só uma linha vermelha esfumada permanecia, ao longe.
Ela suspirou profundamente, e eu soube que viajava no passado. Talvez naquela mesma praia…
Queria saber o nome dela, mas não me atrevia a pronunciar uma sequer palavra, com medo que aquele momento mágico se quebrasse.
Mas, de repente, tocou-me. Pegou na minha mão e entrelaçou-a na sua. E à minha frente vi a sua vida acontecer: vi cidades e pessoas, vi lágrimas e vi sorrisos. Viajei na sua alma e conheci-a por completo.
Sei agora dos seus medos, das suas fragilidades, das suas alegrias e dos seus sonhos.
Deitei-me no areal a observar as estrelas que acabavam de aparecer. Ela a meu lado, ainda não tinha largado a minha mão.
Acordei momentos depois, arrepiado por um vento mais forte. Dela nem sinal.
Olhei a minha volta e nada. Era como se nunca estivesse cá estado.
Se calhar foi um sonho… Só sei que lá volto, todos os fins de tarde. À mesma praia de sempre.