5.4.06

Da Paixão

Quando alguém está apaixonado tem uma característica invulgar de filtrar as coisas más na outra pessoa e vê-la simplesmente com todos os pormenores que fazem com que ela seja especial. Isto é um facto provado, por isso ouvimos vezes sem conta que o amor é cego. Talvez seja… Mas se o amor é cego a paixão sofre de hipertimia. De um momento para o outro o Sol tem um brilho diferente, as cores estão mais vivas e o nosso dia a dia parece acompanhado de uma banda sonora.
Não podemos negar que a paixão nos torna em seres melhores, faz-nos sorrir e encarar o que nos rodeia de forma mais positiva, segundo algumas pessoas até faz bem à pele, pois o corpo produz mais endorfinas, sem esquecer as oxitocinas e vasopressinas.
Mas esquecendo todas estas reacções físicas e químicas, e pegando um pouco na linguística, a palavra paixão deriva do termo grego «pathos» que por sua vez significa agonia permanente. Será que aquela sensação das borboletas no estômago é apenas um sinal enviado pelo nosso inconsciente de que algo vai correr mal? Terá a paixão saído da caixa de Pandora?
A paixão dura no máximo dois anos, se for correspondida. E depois? Ou surge o amor, ou acaba tudo. E aparece um outro problema: a solidão.
Estamos novamente por nossa conta. Mas na nossa cultura e sociedade há uma quase regra que nos diz para procurarmos novamente uma possível cara-metade, alguém que nos complete, porque estar sozinho é quase patético.
Mas será que vale a pena tanta exposição, tanta entrega se no final estamos sempre por nossa conta? Será que vale a pena andar em busca da nossa outra parte?

4.4.06

A Quinta

Entrei no sótão e tentei adaptar os olhos à falta de luz que lá havia. A iluminação era estabelecida unicamente pelos raios de sol quente que teimavam em entrar pelas telhas sujas e velhas do casarão. Lá dentro cheirava a passado. Cheirava a coisas esquecidas.
Olhei em volta a tentar identificar o que por lá havia. Apenas velhos baús, caixas e bugigangas dos tempos em que a quinta ainda era habitada.
Lá em baixo conseguia ouvir o meu irmão a falar com o mediador imobiliário que viera para avaliar a quinta. Depois da morte dos meus avós não fazia sentido ficar com ela. Nenhum de nós queria morar neste fim de mundo, e deixar a quinta ao abandono não era uma boa opção.
Caminhei em direcção a uma pilha de livros poeirentos, decidira guardar apenas algumas coisas, aquelas que nos trouxessem recordações mais fortes, as que tivessem mais significado.
Não tinha muitas recordações daquele sítio. Estivera ali apenas duas ou três vezes, quando ainda era pequena. E as coisas que eu mais recordo, como os animais e o burburinho de fundo tão característico, já não existem. Foco novamente a minha atenção nos livros, sacudindo o pó para ler os títulos. Dois livros de culinária, um de matemática, dois de contos infantis e um álbum de fotografias.
Tento encontrar um feixe de luz e sento-me por baixo dele. Olho a capa do álbum em couro envelhecido pelo tempo. Abro-o e é como se viajasse ao passado. Fotografias de gente que não conheci, amarelecidas e sarapintadas. Pequenas e recortadas. As folhas cheiram a mofo, um cheiro abafado e quente. Encontro o meu pai ainda criança, os meus tios que nunca mais revi, os meus avós ainda cheios de vida, os imensos criados que morreram de velhice, eu e o meu irmão pequenos a montar a cavalo, o último Natal que vivi aqui…
Começo a pensar em como seria bom se pudesse rever os meus avós, e como seria bom se os tivesse visitado mais vezes e conhecido melhor.
Começo a pensar e a ficar triste. Como ficariam também tristes os meus avós se vissem como isto ficou, como o desinteresse modifica as coisas.
Levanto-me num repente para sair do sótão e descer até ao salão. Não vou permitir que o passado seja esquecido. A quinta não vai morrer com os avós.
Estou decidida. Vou fazê-la renascer, e assim talvez fortificar laços com quem viveu aqui também.
Corro pelas divisões a abrir todas as janelas e a deixar entrar a luz e energia. Esta energia que gera vida. E sei que não é uma loucura, que vou conseguir. Porque sei que nos piores momentos, naqueles em que parecer que não há força para ripostar, vou ter alguém a olhar por mim e a certificar-se de que tudo acaba bem.