24.9.06

Grãos de Areia

Perder alguém de quem gostamos é perder o rumo a seguir e ficar sem referências para seguir em frente. E é muito penoso encontrar de novo o caminho traçado e voltar a percorrê-lo.
Mas saber que estamos a perder alguém, apercebermo-nos disso e nada fazer, não reagir, é um misto de cobardia e apatia tão profundo que parece quase irreal.
E é isso que está a acontecer comigo. Estou a perder-te. É cada vez mais visível a distancia que nos assola. Uma falha sísmica que se abriu no nosso meio, cada vez mais profunda que nos afasta e parece impossível construir uma ponte para unir estes dois pontos distantes.
Estás a escapar-me por entre os dedos como finíssimos grãos de areia. E eu vejo os segundos a morrerem, vejo a contagem decrescente perto do fim. E esta bomba relógio que construímos com precisão cirúrgica vai rebentar. E nesse dia vamos gritar, vamos bater portas que nunca mais vão abrir, até ficarmos num silêncio sepulcral que nunca mais se vai quebrar.

5.9.06

Laços

Fazer as malas e sair de casa foi a melhor ideia que eu tive nos últimos anos.
Nunca fui de apegos. Nunca criei laços com nada nem com ninguém. No final de contas acabou por ser bom. Assim consigo viver por minha conta, sem dependências nem saudades.
Nunca senti saudades. Sentir saudades é querer algo de volta, e eu não sei viver no passado.
Peguei nas coisas e saí. Foi tão simples quanto isso.
Já passaram dois meses e voltar nunca me passou pela cabeça.
Não sabia exactamente para onde ir, só sabia que era para sul. O indefinido não me assusta.
Viajei de comboio e depois à boleia. E acabei por chegar a Sines. A primeira paragem, claro, só podia ter sido na praia.
E fui ficando. Aluguei um quarto na Av. Vasco da Gama, e como até tenho sorte arranjei trabalho numa livraria.
Pela primeira vez parece que estou a criar laços com alguma coisa. Nem que seja com esta vista da janela do quarto, que me traz uma paz solitária como eu sempre precisei e nunca tive.
Acho, cada vez mais, que não nasci para casar, ter filhos, férias em Agosto, uma carrinha familiar… Nasci para seguir o caminho que eu quero, se precisar de cair tenho dois braços para me suportarem e ajudarem a levantar.
Nasci para me descalçar quando quiser e caminhar no areal, para entrar no mar só por prazer nem que a água tenha um ou dois graus negativos.
É claro que já me apaixonei, não sou nenhum bloco de cimento. Mas nunca houve ninguém que me prendesse, que me fizesse ficar. Há-de haver alguém, espero. Pois não consigo aceitar que nunca vá encontrar alguém que não seja tão passageiro como todas as outras pessoas na minha vida. Tudo o que eu vi nessas pessoas, que me fez apaixonar por elas, nunca foi suficiente para que fosse duradouro. Como já disse, nada me fez ficar.
E agora a minha nova vida, tão por minha conta, reserva-me surpresas de certeza. Talvez me encontre, e mude esta minha maneira de ser tão volátil e desprendida. Senão, se não houver ninguém que me faça ficar e criar laços inquebráveis, tenho sempre o meu mar que me recebe sempre como quem recebe quem lá mora, quando volta de uma longa viagem.