14.9.07

O Rio

E ela está ali parada na margem do rio.
A noite já não a assusta e o frio deixou de o sentir há algumas horas atrás.
O corpo está molhado, a pele está a perder a cor.
As lágrimas ainda não pararam apesar da apatia visível de todos os sentidos.
O conforto. Há muito que o conforto deixou de ser uma prioridade. Dentro dela só há feridas, chagas… Uma dor permanente e asfixiante.
As mãos e os pés estão sujos e ensanguentados pelo longo caminho que percorreu e pelos obstáculos que escalou.
O seu físico e a sua alma uniram-se e afiguraram-se num só: débil, doente, ferido.
O rio está a subir, cobre-lhe o tronco com uma cordial indiferença mútua.
A chuva recomeçou, limpando-lhe o rosto numa preparação fúnebre.
Está submersa. Ela e a escuridão são uma só.
A concretização de algo que se avizinhava.

Tudo aconteceu calmamente, como num sussurro.

E o rio continua, nada o pára.