22.3.12

O Trapezista

Uma vez namorei um trapezista. Foram horas intensas, de coração entre os dedos, e no peito a percussão de um tambor... Dias e dias a fechar os olhos no triplo salto. 
E ele era perfeito no seu trapézio, os movimentos sincronizados como luas e planetas. As pernas e os braços e os músculos e as células transformadas num líquido que fluía como na estação das chuvas.
Eu não sabia senão olhar para cima. O meu queixo só sabia existir num ângulo obtuso.
Uma vez, no grande final, decidi abrir os olhos para te ver ser quase pássaro. A rede já tinha sido recolhida pelos pescadores de aplausos.
Eu de olhos postos no trapézio à espera que lá pousasses, mas nunca lá chegaste. Só um baque surdo no chão da arena. O pó no ar, como pequenas partículas de um cosmo.