Ontem tive uma vontade avassaladora de estar contigo. De te ter por perto.
Ando a sofrer de uma especie de doença bipolar: ou tenho picos de felicidade porque sei que gostas de mim e o que temos é uma coisa maior e impossível de descrever, ou morro de angústia porque te sei longe, quase inatingível.
As coisas já não correm como de costume. E a tua falta faz-me mal. Não consigo que nada saia bem à primeira.
Ando muito introspectiva, a remexer o que vai cá dentro, tentando encontrar não sei o quê que me devolva à realidade que conhecia há uns meses atrás.
Não é fácil, sabias? Já nem as noites me salvam. Ou perco horas a folhear um livro, tentando a custo seguir a história. Ou escrevo-a eu, como agora, devorando cigarros nas horas vagas e infinitas.
Mas ontem foi pior. Não aguentava o sufoco de quatro paredes, tive que sair. E às quatro da manhã ainda vagueava na rua, procurando-te em cada esquina. Como sempre acabo na praia, um refúgio que é de outra realidade.
Voltei a casa em piloto automático. Já não me sentia em mim de tão cansada. Dormi quase um dia inteiro.
Quando acordei o vazio ainda lá estava. Não ia embora e não havia nada que o preenchesse que estivesse fisicamente ao meu alcance.
Viver assim afecta-me profundamente. É como ter um buraco negro no peito que cresce de dia para dia e que vai acabar por ser maior que eu e que todas as minhas forças.
Dizem que se desejarmos muito uma coisa e se concentrarmos todas as nossas energias positivas a imagina-la, mais dia menos dia acaba por acontecer. E eu não tenho feito outra coisa. Imagino-te várias vezes por dia a regressar. Vejo-te com ar cansado a entrar no avião, a procurares o teu lugar, a lançares um último olhar pela janela àquela terra maldita que te prende há quase dois anos.
Mas não adianta, são apenas visualizações, de algo que não está para breve.
E eu espero. Que é a única coisa que posso fazer.