Disse-me o Avelino, uma vez
durante um jogo dos juvenis, que não há nada mais bonito do que uma fêvera a
grelhar na brasa. E continuou:
- É todo o conjunto: a
antecipação do sabor na boca, os estalidos que ela dá enquanto cozinha… Repara…
Sabes quando estás com tanta fome que o estômago ameaça morder-se por dentro?
Não é apetite! Mas aquela fome que dói cá dentro? Agora imagina-te com
essa fome de dois dias, como eu tinha muitas vezes quando era um puto, ainda
mais novo que esses que aí correm no campo. Lembro-me de passar lá em baixo ao
pé do rio, passei junto às grades da casa do juiz e aquele cheirinho de fêveras
a grelhar entrou-me pelo nariz acima. Agarrei-me às grades como um condenado.
Ao fundo do jardim, um homem de calções à inglesa tinha fêveras e entrecosto a
grelhar na brasa. Juro-te que tive que segurar a saliva. Por momentos devo ter
alucinado com a fome… Senti um naco de pão entre as mãos, ao nível dos olhos.
Senti-lhe mesmo a farinha nas pontas dos dedos! E eu a abrir a boca devagarinho
porque doía, como se a boca e os dentes tivessem enferrujado por falta de uso.
O pão ali à frente dos olhos e a fêvera a espreitar de lá de dentro. Bem
passada como eu gosto. Com aquelas riscas acastanhadas marcadas na carne
esbranquiçada, o molho a escorrer-me palma abaixo. Trinquei em seco e doeram-me
os dentes da frente. Cheirei os dedos à procura de vestígios da fêvera, mas só
senti o cheiro a laranja das cascas que encontrei num muro e pus-me a roer.
Estava já para sair dali quando vem um miúdo aos saltinhos pelo jardim, de
uniforme de colégio, com um pão saloio entre as mãos. Fiquei a olhar para ele,
a vê-lo aproximar-se de mim. Olhou-me debaixo, com o nariz muito aguçado. Ainda
lhe disse: dás-me um bocado? E apontei para o pão para não haver dúvidas. Ele,
sem tirar os olhos de mim, mordeu o pão e abriu a mão que o segurava, deixou-o
cair na terra do jardim. Desatou a correr e entrou na casa. Ainda me espremi
todo por entre as grades a tentar chegar-lhe, mas estava muito longe. Quando
fui para a tropa, sempre que recebia, ia comer uma bifana ao café lá da terra.
Mas nunca me esqueci daquele episódio e sempre que vejo uma fêvera a grelhar
comovo-me. Aquele pequeno, o que fez foi maldade… Há maldade em toda a gente,
mesmo nas crianças pequenas… E estes gajos que nunca mais marcam? Ainda por
cima a jogar em casa!
Fiquei alheado do jogo, a pensar
no que disse o Avelino. Pensei na casa junto ao rio, nos jardins à volta, no
portão com o batente em forma de punho fechado cheios de ferrugem, agora.
Lembro-me de correr naqueles jardins, e de ir ao rio nadar no verão com o meu
avô. Não me lembro do episódio do pão, mas sinto uma vergonha aflitiva na
garganta e uma vontade muito forte de chorar. Não respondi ao Avelino. Nunca
soube o que é o estômago a morder-se por dentro, nem a fome de dois dias.
- Deixe lá o jogo Avelino. Vamos
ali à tasca comer uma bifana. Esta pago eu.
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