29.6.05

Solidão

O homem solitário é uma besta ou um deus.
(Aristóteles)

27.6.05

Contos

Não posso ser só eu a dar sentido à razão
Vais ter que vir tu arrancar-me a escuridão
É que às vezes quem vence fica sempre a perder
Vamos deixar de usar armas no que queremos ser
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais contos de embalar
Não podes ser tu a dar sentido ao buraco
Se não te queres lembrar do que sentiste no fundo
Agora tens que vir tu saciar-me os segredos
Porque é fácil demais o que me queres vender
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais contos de embalar
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Vais ter que despir o que tenho a mais
Por ver sempre tudo a desconstruir
Por cima da raiz que nunca sai
Que volta a crescer por não parar
Que volta a crescer por ser maior
Que volta a crescer sem avisar
Sem mais contos de embalar
TORANJA , SEGUNDO
Obrigada, Tiago... pelas palavras.

22.6.05

Na Terra de Todas as Cores

Na terra de todas as cores
Lá longe, depois da China
Vivia o Mago das Flores
Com o cão e uma menina

No poço da sua aldeia
Trazia antes de anoitecer
O branco e o amarelo
Para pintar o Malmequer.

O Lírio e a Violeta
Criava-os de todas as cores
E misturava na sua pipeta
Toda a perfeição dos amores.

O cão felpudo brincava
À sombra de um castanheiro
E via crescer a cada dia
As flores lá no canteiro.


O trabalho da menina
Naquela terra de mil cores
Era regar com muito amor
O solo de todas as flores.

Quando a Primavera chegava
Todas as ruas ficavam em festa
E toda a aldeia se decorava
De rosas, tulipas… até giesta.

O Mago de barbas cândidas
Trabalhava noite e dia
E a menina regava, regava,
Tudo aquilo que ele fazia.

Um dia muito cansado
O Mago teve um susto.
Viu que por erro tinha criado
Um grande vermelho arbusto.

E agora o que faria?
Um arbusto não é vermelho!
Não o podia voltar a pintar,
Tinha de ir pedir um conselho.

Subiu à montanha mais alta
Quase, quase a tocar nos céus,
E numa suplica muito aflita
Pediu para falar com Deus.

O Senhor estava ocupado,
Mas mesmo assim atendeu
O Mago tão desesperado
Que sempre Lhe obedeceu.

“Meu Deus deste-me um dom,
mas falhei no meu dever .
O que vou fazer com o arbusto?
Será que tenho de o esconder?

Deus respondeu ao Mago
Do alto da sua sabedoria
Que mesmo o arbusto vermelho
Era belo porque vivia.

“ Se eu te tivesse feito verde
com os olhos de todas as cores
Serias o mesmo homem Mago
Que tanto ama as suas flores.”

O Mago agradeceu contente
Os conselhos do Senhor Criador
E desceu a montanha correndo
Pois descobriu o verdadeiro amor.

Amava da mesma maneira
Todas as suas flores da colecção.
Também amava o arbusto vermelho
Que nasceu por incorrecção.

No primeiro dia da festa
O Mago estava nervoso.
Não sabia o que diria
O Povo tão zeloso.

Não sabia o que iriam pensar
Dos mais arbustos que criou:
O vermelho, um azul e um magenta.
Criticariam aquilo que o Mago inventa?

O Povo chegou mesmo à hora certa.
Olhou as flores sempre muito belas.
Coçou a cabeça, e ficou de boca aberta!
Estavam na festa muitas heras amarelas!

E arbustos de cores estranhas!
Estaria o Mago louco?
As rosas não eram castanhas!
E os arbustos tão pouco!
“Senhor Mago - disse alguém
Esta festa não está igual
Àquelas que a gente vem!
O Senhor comeu algo que lhe fez mal?

Na ponta, uma mulher
Dizia de sua razão
“Eu não acho nada bem
que o senhor faça esta confusão.”

O Mago esperou então,
Que o povo se acalmasse.
Ninguém parecia interessado
Que o Senhor Mago falasse.

As pessoas falavam, gritavam,
Faziam gestos de incompreensão.
Mas ninguém deixava realmente
O Mago dar a sua opinião.

Até que o Mago se fartou
De ver tanta agitação
E do alto da sua voz
Começou a declaração:

“Senhor Povo, por favor
Ouça o que eu tenho para dizer
Criei estas plantas com tanto amor
Acha que elas não devem viver?

Que mal tem se o arbusto
Que sempre verde nasceu,
Nasceu depois de um susto
Tão negro como o breu?

Se os vossos filhos amados
Nascessem de forma diferente
Iriam deixá-los, abandonados
Sozinhos, longe da gente?”

Então o povo acalmou
E pensou, pensou, pensou.
Olhou novamente os arbustos,
Até que um sorriso se formou.

Viram que a obra do Mago
Tinha sido feita com ternura
E que mesmo a flor do jasmim
Tem o mesmo cheiro sem a sua alvura.
Viram rosas verde esmeralda,
E tulipas cor de caramelo,
Viram margaridas prateadas,
E um orgulhoso cacto amarelo.

O Mago estava feliz.
E recebeu no final da festa
Muitos elogios, aplausos.
E depois foi dormir a sesta.

Deitou a sua cabeça branca,
No macio da almofada.
Sonhou que estava a voar alto
Acompanhado por uma fada.

A fada muito pequena
Tinha o cheiro do alecrim
E pediu ao Mago das Flores
Que lhe criasse um jardim.

O Mago criou então,
Um jardim bem colorido.
Depois voltou para casa
Com a ideia num Pomar garrido.

Ainda hoje se conta
Na terra de todas as cores
Que o Mago ainda lá anda
A colorir as suas flores.

E que a menina canta baixinho
Uma linda canção de embalar
Para adormecer todas as flores
Que acaba de regar.

O cão felpudo e traquina
Que gosta de brincar
Rebolana relva macia
Que acabou de rebentar.

Lá longe depois da China,
Na Terra de Todas as cores
Mora um cão e uma menina
Com o Mago das Flores.
Para a Nicole, para o Giovanni e para a Juliana.

15.6.05

Até Sempre... Para Sempre

São cinco da tarde de um dia chuvoso e triste.
Chego a casa depois de um dia igual a tantos outros.
Abro a porta, atiro a pasta para o chão e dirijo-me à cozinha.
Um corpo inerte reside no chão de mármore, afogado numa poça de sangue.
Helena suicidou-se. Os pulsos vermelhos de carne e sangue não mentem.
Uma carta descansa na fruteira, acamada numa banana.
Toco no corpo. Está frio e rijo. Provavelmente está morta há horas.
Na minha típica atitude estupidamente racional marco o número das emergências.
Pego na carta, desdobro-a e leio:

Amigos,

Não sou nada senão mais um fantasma físico que vagueia neste inferno.
Há muito que me perdi neste cemitério de almas e sonhos.
Estou só, estou só no meio de uma multidão.
Não há saída para mim. Aterroriza-me esta claustrofobia inexistente que habita todo o meu corpo.
Tenho a misantropia instalada permanentemente em todos os meus órgãos e quero sair deste sufoco.
Obrigada por terem permitido que eu entrasse nas vossas vidas.
Até Sempre, Helena


Uma lágrima rola pelo meu rosto e desmaia no papel.
Dói-me a garganta de tristeza.
Helena resolveu morrer no mesmo dia em que eu percebi que a amo.
Agora só tenho a sua memória, para sempre…