29.1.06

Qualquer coisa que ficou...

"(...) Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.

E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente,
Qualquer coisa que ficou que é da nossa eternidade. (...)"

João Gil

7.1.06

Três dias


Se eu te disser que tens apenas três dias…
Três dias para me resgatares de volta.
Para voltares a cruzar caminhos.
Para abrir pela última vez uma porta.

Se eu te disser que espero, mas apenas três dias.

Será que condicionas a tua vida?
Será que traças o mapa de forma diferente?
Por apenas três dias.

Será que vais contar o tempo?
Ou deixar a vida girar?
Tens um plano, um projecto?
Ou apenas um esboço mal feito?

O relógio não pára.
O tempo escapa-se.
Agarra-o.

Ou abre os dedos e deixa-o fugir.

3.1.06

De ti


Há perguntas que eu não te faço porque não sei se estou preparada para ouvir a resposta.
Mas há gestos em ti que me prendem, palavras que me imobilizam.
Já vivemos tantas coisas juntos que poderíamos dizer que já nos conhecemos completamente. Sabemos, à partida como cada um reagirá perante qualquer situação.
O que pode ser um pouco assustador, pois o facto de nos conhecermos na totalidade não nos deixa nada por descobrir. Mas é ao mesmo tempo reconfortante, porque podemos antever a queda um do outro e lançar um gesto para a proteger, amparar e sobretudo suavizar a dor.
Ao longo da nossa vida fomos atribuindo e definindo espaços dentro de nós a pessoas, lugares, momentos… O teu é especial. Carregar-te em mim não exige nenhum esforço, não é martirizante. É até um sentimento agradável. Dá-me a sensação que te tenho sempre perto de mim.
Temos a característica de eufemizar acontecimentos e situações.
E depois há o hábito que criamos um do outro. Como quando chego a casa depois de um dia extenuante e me despes, me beijas e me adormeces. Ou quando vens angustiado, porque uma vida não resistiu e te fugiu das mãos, e eu fico a teu lado em silêncio. Porque as palavras só são necessárias quando há algo a definir.
Tenho a certeza que mesmo que não fiquemos juntos para sempre, vou gostar sempre de ti. E das sensações que me dás quando estás comigo. Pois gosto de ti como és. Com todas as tuas fraquezas e defeitos. Gosto de ti porque és humano e não uma figura idealizada. Gosto de ti porque és o único que me vê como realmente sou e gostas disso.

1.1.06

Perda


Morreu! Ainda não consegui assimilar essa informação mas é verdade.
Ainda não consigo acreditar, nem tão pouco perdoar!
Alem de se matar matou tudo de bom que havia na minha vida. Num momento de loucura, deixou-se vencer pela clareza súbita da vida que nos prende ao mundo por um fio muito fino e frágil… e abandonou-me. Deixou-me no perplexo da incerteza entre o ser e o não ser. E agora estou sozinha num mundo construído para dois. E que só faz sentido se estivermos juntos.
Não sei o que vou fazer daqui para a frente. É tudo indecifrável, como um nevoeiro cerrado. Não sei que passos dar para alcançar o cume da estabilidade e voltar ao que sempre fui.
Nunca pensei que perder alguém fosse isto. Perder totalmente o rumo a seguir e ficar sem referências. Tudo deixa de fazer sentido e o que me acompanha é o nada e vazio nos quais flutuo.
Preciso de ti! Quem te mandou abandonar-me? Quem te fez senhor de decidir que eu funciono sem ti?
Se pudesse voltar dizia-te que somos um só. Que tudo nos pertence. E que a soma total dos nossos corpos é a verdadeira resposta para tudo.
Mas já cá nãos estás. Deveria ter-te dito isto há mais tempo.
Mas temos que aprender a aceitar os acontecimentos e encará-los como desafios à nossa sobrevivência mental. E foi preciso tu partires para eu aprender isso.
As pessoas de quem gostamos são-nos tiradas muito depressa. Por isso devemos deixá-las sempre com palavras de amor, pois pode ser sempre a última vez que as vemos.
Estás longe, num sítio onde já não te posso alcançar. Mas deixo-te aqui o meu amor.
Encontrámo-nos um dia…quem sabe… no céu.

Nádia Soares e Rafaela Oliveira