27.11.07

S. João

Há qualquer coisa de inenarrável no olhar que ele me devolve.
Entra-me pelos olhos e atravessa-me a nuca como um sopro cálido de um dia de praia.
Arrepia-me. Transporta o meu corpo para um festejo, para um estado de euforia típico de noite de S. João.
E mesmo depois, quando a alma se tranquiliza e o dia nasce, o olhar ainda lá está arguto, sagaz, dizendo com os olhos o que a boca quer fazer.





(Foto de Luís Mendonça)

23.11.07

Lonely celebration

Faz hoje mais um aniversário que vendi o meu coração a retalhos.
Jazem algures em colchas perdidas que quando sozinhas, gemem baixinho…

21.11.07

Lust

Even as he thinks, the lust that is no more
Than a memory of lust revives and takes
His senses by the hand, his felt flesh wakes,
And all becomes again what 'twas before.
The dead body on the bed starts up and lives
And comes to lie with him, close, closer, and
A creeping love-wise and invisible hand
At every body-entrance to his lust
Whispers caresses which flit off yet just
Remain enough to bleed his last nerve's strand,
O sweet and cruel Parthian fugitives?

So he half rises, looking on his lover,
That now can love nothing but what none know.
Vaguely, half-seeing what he doth behold,
He runs his cold lips all the body over.
And so ice-senseless are his lips that, lo!,
He scarce tastes death from the dead body's cold,
But it seems both are dead or living both
And love is still the presence and the mover.
Then his lips cease on the other lips' cold sloth.
Fernando Pessoa

13.11.07

Para bom entendedor...

Escuro; Chão; Lareira; Música:

6.11.07

As palavras

Às vezes sinto tudo o que é meu em silêncio. E pareço perdida com a ausência de palavras.Por isso procuro-as avidamente em todos os cantos. Com os olhos, a boca, as mãos...



Ouço-as e repito-as para as dissecar.
Abro livros ao acaso à procura de respostas aleatórias.



Não gosto de abecedários. Não gosto da ordem metodológica de catalogar a língua que falo.




Segredo;
Euforia;
Caos;
Martírio;
Frio;
Amor;
Noite;
Provocação…


Enchem-me a boca como pingos de um beijo.
E todo o meu corpo se acalma, quente, como se se enchesse de nicotina.

3.11.07

Estrela da tarde


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
Ary dos Santos