27.2.05

Obrigada

Cada vez que penso em ti descubro um sentimento novo.
O primeiro foi empatia. Apartir daí fui formando uma colecção, uma desorganizada colecção.
És uma daquelas pessoas com quem se podia ficar uma vida inteira, e, mesmo assim no último dia, naquele em que a essência da vida deixa cair a sua última gota, ainda me irias surpreender.
Tenho a certeza.

25.2.05

Sem rumo

Como um passageiro clandestino entraste na minha vida de fininho. Primeiro com visitas de médico. Depois, aos pouquinhos, colaste-te a mim como a lapa se cola à rocha, que nem com a força brutal de um mar zangado se desprende.
Não sabia quem eras, ou de onde vinhas, mas mentalizei-me que com o passar do tempo me irias dizer. E disseste. Primeiro o teu nome, depois a tua historia. Era uma história banal, triste mas banal. Igual a tantas outras que já me encontraram de olhos molhados e coração estilhaçado. Que eu, com muito jeitinho e paciência, muito devagarinho, tentava consertar. E conseguia. Foi por isso que muita gente se habituou a fazer de mim um colo para chorar. Tu não foste diferente. Chegaste de alma vazia e coração abandonado, enrolaste-te em mim e contaste tudo. Tu gostavas dela, ela não sabia. Ela era de longe e não quiseste saber. Impuseste a tua presença na vida dela, ela assustou-se mas deixou. E fez mal… Um dia bateu-te com a porta na cara como se faz a um vendedor desagradável.
Choraste, não pelo orgulho perdido, mas pela porta que nunca mais se iria abrir para ti. Desististe. Encontraste-me e eu acolhi-te.
E agora que as chagas do teu coração estão a cicatrizar tiraste as malas do armário. Estão vazias mas, mais cedo ou mais tarde vão estar à porta e tu estarás à minha espera para me dizeres adeus. Não vou discutir. Eu não pedi que viesses. És livre e eu vou deixar-te ir. Mas espero que a tua partida não seja para breve. A casa é grande e quando estou sozinha o espaço é assustador.
Embora não te diga tenho medo da solidão. È por isso que deixo que toda a gente venha ter comigo. Mas acabam sempre por partir.
Agora vou perder-te. E sei que nunca mais te vou ver. Já te conheço e sei que não gostas de viver o passado. E eu para ti sou passado.
Comigo as pessoas são intemporais. Não importa quando as vejo, vi ou verei, elas ficam sempre neste meu coração elástico que gostavas de ouvir bater enquanto adormecias. Dizias que não batia “ronronava”. Eu queria explicar-te que não era o meu coração mas os meus pulmões que sofriam com a violência do fumo do teu cigarro, mas nunca quiseste ouvir. Sempre gostaste do lado poético das coisas
Agora vais embora, e sei que vou ter saudades. Não vou ter saudades tuas, mas do lugar que ocupavas cá dentro.
Mas não te vou dizer uma só palavra. És livre e eu não tenho o direito de te impedir de seguir o teu caminho.
Vai. Eu fico com a memória de uma felicidade virtual enquanto aguardo o teu improvável regresso.

24.2.05

Estás em mim

Olá! Dizes tu como se o mundo te pertencesse e como se tivesses a certeza absoluta que estaria neste exacto momento e lugar só para olhar para ti.
Olá! E caminhas de peito aberto desfiando a vida, metido numa segurança avassaladora.
Sorris. Com um sorriso de criança que nunca cresceu escondida num corpo adulto e experiente. Mas quem te vê não imagina o que se esconde por dentro dessa muralha de pele e músculo. São medos e fragilidades.
Eu também pensava assim. Descobri-te, transparente, naquela noite de Inverno.
Chegaste molhado mate à alma. Entraste na minha casa como se também lá morasses, a pedir colo. Acolhi-te nos meus braços e enxuguei-te o corpo e os olhos. Aconcheguei-te à minha pele que ainda hoje não se libertou do teu cheiro.
Acordámos lado a lado. Tu, já recomposto, regressaste à tua personalidade soberana.
E hoje que tudo se baseia à memória duma história incompleta passas por mim com uma pose imperial que não é tua nem nunca foi.
Um dia destes vou ganhar coragem e dizer-te, do lugar mais alto que encontrar na minha alma, que desde aquela noite ficaste preso dentro de mim. Que uma metade tua cresce cá dentro e me preenche nas noites de chuva em que a cama é fria e vazia de ti.

23.2.05

O Amor Dói

Eu queria dizer-te, a sério que queria. Mas cada vez que te vejo a minha alma sofre um arrepio que me impede de qualquer manifestação vocal.
E se eu te disser podias começar a tratar-me de forma diferente, ou até afastares-te e isso era pior que morrer.
Hoje senti toda a tua presença ir muito mais além de tudo o que existe. Senti-te no preplexo da minha alma acariciando a base da minha existência.
O que sinto é muito profundo, completo e inexplicável. Cresce a cada dia que passa e a cada momento se transforma em algo mais puro e transcendente.
É algo mágico, fluído como a respiração e tão grande que quase em mim não cabe.
Tenho vontade de sair para a rua e gritar o teu nome, para ter a certeza que és real, e não fruto de uma imaginação que não me pertence mas que se apoderou de mim.
Às vezes a euforia é tanta que o meu corpo sofre uma descarga de energia que tenho de gastar instantaneamente, antes que esta me consuma a mim. Outras, sou envolvida por uma melancolia tão negra e compacta que dou por mim num estúpido monólogo de auto racionalização. Parece que perco toda a esperança…Mas não posso. A esperança é tudo o que tenho para além deste amor gigantesco, que, cada vez mais, penso ser inconcretizável.
Dói muito ter alguém cá dentro alojado de forma involuntária. Dói muito acordar todas as manhas e perceber que não me pertences, nem sequer em pensamento. Dói muito deitar-me todas as noites depois da frustração diária que é o não te ter. Mas parece que a dor é a única coisa que me dás… inconscientemente. Mas vou guardar este amor para mim. Vou protegê-lo e não vou deixar que esta dor o corrompa. E quando for muito velhinha, vou pegar nele e oferecê-lo a alguém que permita que ele não acabe. E depois disto, finalmente morrereiem paz.

21.2.05

Desejo

Pede um desejo! Quem nunca pediu um desejo? Quando viu uma estrela cadente, quando o número do bilhete do autocarro formava uma capicua… Não te esqueças de pedir um desejo! Diz sempre alguém antes do aniversariante soprar a chama das velinhas, numa velha maneira americanizada.
Estou com desejos. Declara a grávida caprichosa. E o marido, aflito, tenta encontrar as coisas mais estranhas que ela pede, partindo numa demandada épica.
Penso que o meu marido já não me deseja! Desespera a esposa receosa da atitude apática do cônjuge, que covardemente não lhe diz que tem uma amante há dez anos.
Eu desejo a paz no mundo. Repetem as raparigas irmãmente escanzeladas, na esperança de serem eleitas as mais belas.
Acumulam-se os anos, sobrecarregam-se os desejos. Quantos se concretizam?
- Mãe! Uma pestana.
- Pede um desejo!

20.2.05

As paixões, os começos, os fins e a continuidade.

A minha paixão sempre foi a escrita. Mas uma mulher durante a vida tem inúmeras paixões: desde o professor do ginásio à camisa preta que viu numa loja. Certamente ao longo da vida terei muitas mais... Mas nunca deixarei de escrever.
Hoje fui votar pela primeira vez. Hoje vou acabar de ler o livro "O Mar por Cima". A vida é assim, cheia de começos e de fins. Hoje comecei a escrever neste blog. E continuarei a escrever: desde tiradas profundas cheias de sentimento, à maior estupidez que alguém pode ter lido.