Como um passageiro clandestino entraste na minha vida de fininho. Primeiro com visitas de médico. Depois, aos pouquinhos, colaste-te a mim como a lapa se cola à rocha, que nem com a força brutal de um mar zangado se desprende.
Não sabia quem eras, ou de onde vinhas, mas mentalizei-me que com o passar do tempo me irias dizer. E disseste. Primeiro o teu nome, depois a tua historia. Era uma história banal, triste mas banal. Igual a tantas outras que já me encontraram de olhos molhados e coração estilhaçado. Que eu, com muito jeitinho e paciência, muito devagarinho, tentava consertar. E conseguia. Foi por isso que muita gente se habituou a fazer de mim um colo para chorar. Tu não foste diferente. Chegaste de alma vazia e coração abandonado, enrolaste-te em mim e contaste tudo. Tu gostavas dela, ela não sabia. Ela era de longe e não quiseste saber. Impuseste a tua presença na vida dela, ela assustou-se mas deixou. E fez mal… Um dia bateu-te com a porta na cara como se faz a um vendedor desagradável.
Choraste, não pelo orgulho perdido, mas pela porta que nunca mais se iria abrir para ti. Desististe. Encontraste-me e eu acolhi-te.
E agora que as chagas do teu coração estão a cicatrizar tiraste as malas do armário. Estão vazias mas, mais cedo ou mais tarde vão estar à porta e tu estarás à minha espera para me dizeres adeus. Não vou discutir. Eu não pedi que viesses. És livre e eu vou deixar-te ir. Mas espero que a tua partida não seja para breve. A casa é grande e quando estou sozinha o espaço é assustador.
Embora não te diga tenho medo da solidão. È por isso que deixo que toda a gente venha ter comigo. Mas acabam sempre por partir.
Agora vou perder-te. E sei que nunca mais te vou ver. Já te conheço e sei que não gostas de viver o passado. E eu para ti sou passado.
Comigo as pessoas são intemporais. Não importa quando as vejo, vi ou verei, elas ficam sempre neste meu coração elástico que gostavas de ouvir bater enquanto adormecias. Dizias que não batia “ronronava”. Eu queria explicar-te que não era o meu coração mas os meus pulmões que sofriam com a violência do fumo do teu cigarro, mas nunca quiseste ouvir. Sempre gostaste do lado poético das coisas
Agora vais embora, e sei que vou ter saudades. Não vou ter saudades tuas, mas do lugar que ocupavas cá dentro.
Mas não te vou dizer uma só palavra. És livre e eu não tenho o direito de te impedir de seguir o teu caminho.
Vai. Eu fico com a memória de uma felicidade virtual enquanto aguardo o teu improvável regresso.
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