31.10.05

Forever and a day

- Ouve! Vamos ficar para sempre juntos?
- Prometo.
- Para sempre?
- Para sempre e mais um dia, como na música dos Scorpions.
- Não me vais falhar?
- Nunca.
E ficamos assim… juntos. Porque tudo o resto é isso mesmo, resto. Restos que não nos pertencem.
Costumas pegar nas minhas mãos e aquecê-las dentro das tuas. E o mais importante é que me aqueces também a alma e afugentas todos os fantasmas de vidas anteriores.
Resgataste-me, felizmente, de uma certeza que vivia comigo há anos. A certeza de que a solidão me iria acompanhar para o resto dos meus dias como uma sombra, que permanece mesmo quando tudo fica escuro.
Já não te consigo deixar ir. Se um dia fores embora vais levar metade de mim e deixar-me num estado catatónico e vegetativo.
Estou completamente viciada em ti. Nos teus olhos, nos teus lábios, no teu perfume de nada que já existe, na tua pele e em tudo mais que é teu. E um vício é pior que uma doença. Porque não há vacinas ou antibiótico que possam ser directamente administrados no cérebro ou no coração, dependendo do ponto de vista, e libertar-nos dessas correntes.
Por isso fica comigo. Porque desde que chegaste à minha vida tornei-me numa pessoa melhor. Mais forte, corajosa, e sem traumas ou paranóias. Fazes-me bem.
Por isso fica comigo. Forever and a day.

28.10.05

Palavras a preto e branco...




Olá, meu amor. Não sei onde estou.
É estranho este sítio a preto e branco.
Não tem ninguém. Só cinzas de imagens.
Não tem manhãs, nem noites.
O tempo desfragmenta-se e flutua.
Às vezes para o futuro.
Outras vezes para o passado.


Meu amor, consegues resgatar-me?
Leva-me outra vez para junto de ti.
Onde há calor e frio.
Aqui não se sente nada. Nem dor.
Já não me lembro o que é a dor.
Mas sei que não gosto de estar aqui.

Meu amor, consegues ouvir-me?
Ouves os meus gritos?
Eu aqui não oiço nada.
Mas falha-me a voz de chamar por ti.

Estou deitada num carvalho de cimento
Que me assombra todos os dias...


Meu amor, sabes onde estou?
Parece o lado errado de um filme.
Não há vida aqui.
Nem eu sei se vivo.

Sei apenas que vives em mim.
Ou será apenas a tua memória?
Meu amor... Será que me ouves?
Estende-me a mão.
Tira-me desta realidade.
Ou desta irrealidade.
Se pelo menos aqui estivesses...

Meu amor, será que és meu?
Ou feito de um sonho?
Meu sonho... Meu amor.

26.10.05

A Dança da Lua


Sabes a vida de cor
Não te prendes à virtude
Amas o que te traz dor
Ganhas com o teu suor
A calma das noites quentes
Em que dormes com quietude

Sabes a Dança da Lua
De desejo ondulante
Extingues o fogo interno
Como se fosse o teu inferno
De uma pele bronzeada e nua
Viciante, aliciante

Com os teus lábios cortantes
Rasgas o silêncio matinal
Com a destreza animal
Que rompe os segredos gritantes
Do meu puro vício carnal

Trazes em ti a marca profunda
De um truque primordial
De um feitiço ancestral
De luz, silêncio e morte
Que ditou a tua sorte
De carne quente imunda
De prazer libertino e banal

24.10.05

Amigo

"Martim,
Eu sei que sempre fomos os melhores amigos, e que sempre contámos tudo um ao outro, e foi isso que nos manteve unidos mesmo depois de acabarmos.
Como tua melhor amiga acho que tenho o dever de te dizer a verdade, não de te consolar com uma mentira simpática só para te proteger.
A Rita não é a minha pessoa preferida. Tu sabes disso. Quando andávamos na mesma escola ela fazia de tudo para me humilhar e me fazer sentir deslocada. Nunca me tratou bem. Por isso a opinião que tenho dela não é das melhores.
Não te vou dizer que o teu namoro com ela é um erro, não tenho esse direito. És maior de idade, sabes tomar as tuas decisões e aceitar as suas consequências.
Quero que sejas feliz, seja qual for a pessoa que escolhas para ficar contigo, seja qual for o teu caminho.
Serei sempre tua amiga e podes contar comigo para tudo: para um conselho, uma opinião, ou uma reprimenda."

21.10.05

Cavaleiro Andante








Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz
Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau
Carlos Tê

18.10.05

Seremos todos descamponeses

Na revista Lua Nova, número 4, página 20, de Mia Couto: GOVERNADO PELOS MORTOS
(fala com um descamponês)"...
- Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmo se
tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só para poderem pedir a alguém.
- E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos retirados?
- Foram. Nós só ficamos com o descampado.
- E agora ?
- Agora somos descamponeses.
- E bichos, ainda há aqui bichos ?
- Agora, aqui, só há inorganismos. Só mais lá, no mato, é que ainda abundam.
- Nós ainda ontem vimos flamingos...
- Esses se inflamam no crespúculo: são os inflamingos.
- E outras aves da região. Pode falar delas ?
- Antes de haver deserto, a avestruz pousava em árvore, voava de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, há nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o título de beija-pássaros. ..."

3.10.05

O inutil

Já passei da idade de sonhar.Não sei ser feliz por mais que tente. Sou um homem frio e velho como o Inverno. Tive mulheres, mas não tive amor. Tive dinheiro, mas não comprei a satisfação. Tive três filhos, nenhum como eu, felizmente.
Quando era pequeno não brincava com ninguém. Fechava-me em casa com tudo o que tinha e queria ter. Formava um mundo só meu, onde era omnipotente e omnipresente. Fazia o que queria e não era obrigado. Cresci sozinho, no meio de mordomos e sopeiras.
Estudei sozinho com professores particulares. Casei, mas não amei nem fui amado.
E agora que estou a morrer gostava de ser outra vez pequeno. Cair e esfolar os joelhos. Construir carrinhos de rolamentos. Sujar-me nas poças de lama nos dias de Inverno.
Ser pintor. Apaixonar-me. Viver.
Agora que estou a morrer aprendi a ser diferente. “A minha vida foi inútil.” Escrevam isto na minha lápide.