3.10.05

O inutil

Já passei da idade de sonhar.Não sei ser feliz por mais que tente. Sou um homem frio e velho como o Inverno. Tive mulheres, mas não tive amor. Tive dinheiro, mas não comprei a satisfação. Tive três filhos, nenhum como eu, felizmente.
Quando era pequeno não brincava com ninguém. Fechava-me em casa com tudo o que tinha e queria ter. Formava um mundo só meu, onde era omnipotente e omnipresente. Fazia o que queria e não era obrigado. Cresci sozinho, no meio de mordomos e sopeiras.
Estudei sozinho com professores particulares. Casei, mas não amei nem fui amado.
E agora que estou a morrer gostava de ser outra vez pequeno. Cair e esfolar os joelhos. Construir carrinhos de rolamentos. Sujar-me nas poças de lama nos dias de Inverno.
Ser pintor. Apaixonar-me. Viver.
Agora que estou a morrer aprendi a ser diferente. “A minha vida foi inútil.” Escrevam isto na minha lápide.

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