17.3.06

Desistencialistas

Mais cedo ou mais tarde ignoramos, ou desistimos daquilo que não conseguimos compreender.
Como quando tentamos incessantemente construir um daqueles puzzles de mil e não sei quantas peças, que deixam a nossa cabeça dividida em igual número de partes, e depois, irritados com a nossa falta de apetência, metemos tudo na caixa e guardamos no fundo do armário longe de qualquer possível segunda tentativa frustrada.
Mas, como em tudo na vida, há especialistas. Pessoas especialistas em desistências. Passam a vida a perseguir metas e a desistir antes do fim. E o pior é que isto se torna de tal maneira lema de vida, filosofia, ou sei lá… talvez seja mais uma fobia, que passam a desistir das pessoas.
Desistir das pessoas tem muito que se lhe diga, pois não se pode meter alguém dentro de uma caixa e atirá-la para o fundo do armário. Por incrível que pareça há técnicas. Técnicas que variam desde a subtil necessidade de isolamento, até a uma das mais difíceis de concretizar que consiste em deixar alguém plantado no meio da rua, virando-lhe as costas e prosseguindo como se nada fosse.
Estas pessoas não são cruéis, nem têm nenhum tipo de carências afectivas que lhes desenvolveu algum espécime de trauma emocional. Nada disso. São apenas seres pensantes com um nível de entediamento muito elevado que acaba por se manifestar na forma como conduzem a vida e as suas relações interpessoais.
Contudo, não é de todo um fenómeno social, nem são necessários estudos para chegar a uma conclusão lógica e plausível sem ser fundamental recorrer a amostras e experiências. É simples. Na maioria dos casos estes indivíduos serão vítimas da sua própria especialidade em desistências.
O entediamento é contagioso, e ninguém quer passar pela dificuldade que é sobreviver à companhia intermitente de um desistencialista. Por isso desistem primeiro que desistam deles.
Não há nada humanamente possível que se possa fazer por estas pessoas. Tentemos apenas não ser como elas, aplicando-nos em concluir o que começamos.
Estes desistencialistas são pessoas iguais a todas as outras. A única diferença é que estão cheios de armários e baús a abarrotar de tralha, que de vez em quando gostam de remexer para constatar que nunca irão mudar.

16.3.06


Um dia um homem sonhou, e mudou para sempre o mundo...

15.3.06

Old New York


Os dias sucedem-se numa marcha infinita de luz e escuridão.
E eu olho:
Pessoas que passam vezes seguidas, e outras uma única vez.
As cores que aparecem e se esgotam, e os cheiros que gostaria de guardar.
Esta cidade é assim: uma mistura policromática de tudo, podia até descrevê-la como um grande catálogo de todas as coisas que podemos ver no mundo.
Há anos que vivo aqui, atrás deste balcão de uma livraria antiga que o meu pai me deixou. Cresci a ver livros, a conhecê-los a respeitá-los. Sei de tudo um pouco.
E vejo sempre as pessoas através desta grande janela. Passam a correr para um lado ou para o outro. Por vezes não sei se têm mesmo pressa de chegar a algum lado, ou se apenas têm o hábito de andarem assim. O que elas não sabem é que vão passar pela vida demasiado depressa. Sem erguerem pelo menos uma vez a cabeça, e olharem o céu que se prolonga além dos grandes edifícios.
Do que eu mais gosto aqui é do Outono. Quando a cidade respira de alivio dos concertos e festivais do Verão. E tudo acalma e volta à rotina.
Gosto de andar pela 5ª Avenida em direcção ao Central Park. E ficar por lá nos fins de tarde, a ver as árvores que se pintam das cores da terra.
E é no Inverno que a correria se intensifica: pessoas mais apressadas ainda, com grandes sacos de presentes; outras que chegam de várias partes do mundo para sentir e ver o espírito Natalício que se salienta com as luzes e com a neve.
E neste enorme formigueiro de gente e culturas, haverá sempre lugar para mais um concretizar o sonho americano.
E eu estarei sempre aqui, atrás deste velho balcão rodeado de estantes de carvalho. A ver as pessoas que passam. O sangue da cidade nas suas imensas artérias.

11.3.06

Alma de Nómada

8 : 15
Toca o despertador, inoportuno! E era suposto estares aqui. Sentada no teu lado da cama, enrolada numa toalha com o cabelo a cheirar a champô.
Era suposto, mas não estás. Em vez disso encontro um lado da cama frio e arrumado.
Sempre acreditei que connosco era para sempre, que irias ficar comigo até ao dia D, em que o corpo sucumbe e a alma ascende. Mas não.
O que parecia perfeito e me fazia sentir o tipo mais sortudo à face da terra desapareceu, desintegrou-se...
Ainda não consigo entender o que se passa dentro da tua cabeça: como consegues desprender-te das pessoas em três tempos, com que facilidade pegas nas tuas coisas e anuncias na mesma hora a tua partida.
Não consigo perceber também a simples e incompleta explicação com que me deixaste: que és uma pessoa singular, uma unidade e que não aceitas bem relações.
Chegas a essa conclusão um ano depois de partilharmos os mesmos espaços, a mesma vista sobre o Mar e os mesmos lençóis!
O pior é que eu não te consigo imaginar a vagabundear, perdida em ti mesma para sempre. Mais cedo ou mais tarde vais precisar de parar, chorar. E vais encontrar alguém que te ache graça, como eu achei, e que se apaixone por ti como aconteceu comigo. E vais ficar com ele uns tempos, a lamber as feridas e a sarar o espírito.
E vais passar a vida inteira nisto. Vais passar a vida inteira a pedir boleia a almas solitárias, cheias de vontade que o teu corpo lhes preencha os espaços deixados em branco. Até o dia em que decides partir novamente, deixando para trás corações em pedaços e olhos que já não conseguem chorar.
Por favor pára um minuto e pensa. Só um minuto para reflectir, porque bastaria um gesto para eu abrir de novo a porta e deixar-te ficar nesta casa que é grande demais sem ti.

2.3.06

A Viagem...



Olho o meu retrato, e olho-me ao espelho. Não sou eu.

Tenho vontade de pegar num cinzel e esculpir de novo aquilo que eu fui.
O maior inimigo de alguém é o tempo,
principalmente quando se crava na alma
.
O quarto à minha volta está frio e parece cada vez mais negro.
Estou gelado, por dentro e por fora…
A janela abre-se num repente e o vento outonal espalha os papéis pelo chão da divisão.
Um livro antigo cai e abre-se. E lá está a fotografia.
A velha fotografia. Velha…
E eu grito, agarro-a e rasgo-a em mil pedaços. Fantasma.
O chão. Range.
E a dor. Álgica e minha. De sempre.
Chega e fica. Perpetua-se.
Horas.
O sal secou.
E eu sequei.
Já falta pouco. Para a viagem.