28.4.05

Abandono

E desde aquele dia eu nunca mais te vi. Ficaste para lá do meu alcance. Naquele sítio entre o físico e o intocável onde ninguém está, e tu estás, para mim…
Abandonaste-te de forma voluntária… Ficaste sozinha e pediste para ninguém te procurar, porque a tua opção de vida era ficar perdida.
O que posso fazer senão aceitar? Nada. Tenho que concordar com essa tua ausência que me magoa e que me rói cá dentro.
E é em dias como este, de uma trovoada medonha em que a chuva parece querer rasgar a janela, que eu mais sinto a tua falta.
Era de dias tristes como estes que tu gostavas. E eu agora também gosto deles, são bonitos. Como tu, és bonita por ser diferente.
“A renúncia é a única coisa que nos resta perante uma vontade divina que nos transcende.”, e essa vontade divina roubou-te de mim.
Hoje estive com a nossa história nas mãos. Abri aquele livro de capa negra com letras cinzentas, todo ele de luto, e comecei a ler… Mas a tempestade não deixou que continuasse… Não vale a pena.
Quero ficar tranquilo, mas não te quero esquecer. Mas não posso ter as duas coisas. Então relembro-te.
Não se pode ter liberdade absoluta, e este é o meu destino lançado por um óraculo cruel.
Se tu ainda pudesses voltar, se eu soubesse por onde andas… Resgatava-te. Fazia com que percebesses que a solidão não faz bem. É uma droga, pior que os químicos.
Porque é que tens tanta necessidade de solidão? Não vês que ela nos afasta?
É uma dor brutal não saber nada de ti. Não poder cruzar a minha vida com a tua.
Já te disse que hoje estive com a nossa história nas mãos. Olhei para aquelas palavras, para os papéis soltos dentro do livro de capa negra com letras cinzentas e percebi que não resta nada daquilo que um dia fomos.
Naquele dia em que pedi para falarmos, ia dizer-te que queria continuar contigo, que continuava a gostar de ti, que sem ti a vida era mais difícil e amarga… mas tu não me deixaste falar e acabaste tudo com um adeus frio e distante. E foi assim que te perdi.
Agora não passas de um passado distante. De uma árvore que não cresceu. Da letra de uma música inacabada. Não passas de um caminho perdido no percurso da minha vida.
Às vezes ainda me pergunto onde estás. Apenas para tentar convencer-me que a tua partida e o fim do que nós tínhamos foi o melhor para mim e era o início de uma nova etapa em que a tua ausência se resume a uma história imaginária que aconteceu.
Lembro-me do nosso último momento. É sempre o último momento que se guarda. Nunca serei capaz de digerir a forma cruel como te despediste de mim. Nunca vou perceber essa tua capacidade de abandonar as pessoas que mais gostam de ti. Nunca vou perceber como consegues matar dentro de ti sentimentos e abafar emoções. Deves ter perdido o coração num dia triste e fizeste da tua alma um muro muito alto, intransponível, que ninguém, nem eu que gostei de ti com uma profundidade e entrega total, conseguiu sequer espreitar.
Mas de que me adianta, agora, pensar naquilo que a vida poderia ter sido? A vida é o que é e não há nada a fazer, senão aceitá-la e vivê-la da melhor forma possível.
Continua a chover. Chove sempre que me lembro de ti.
E é quando a trovoada chega e ilumina o quarto, que eu consigo ver pela janela que lá fora tudo continua a rolar, que nada parou, apenas eu.
Agora estou cansado. Quero dormir. Para sempre. Pode ser que te encontre.
Nádia Soares e Rafaela Oliveira

26.4.05

Os teus olhos verdes

Os dois sentados lado a lado. Os dois com os olhos postos no ir e vir repetitivo e infinito das ondas. Era quase noite. O céu pintado de vermelho e laranjas como se Deus se aborrecesse de vê-lo azul.
A praia estava deserta. Nós em silêncio. Para além do ruído das ondas a desmaiar na areia, só se ouvia a nossa respiração ritmada.
A meus pés o caderno de capa preta que sempre trago comigo. Nada lá tinha escrito nessa tarde. Preferia a tua companhia que a companhia das palavras.
Coçavas o queixo com barba de dez dias como fazias sempre que tinhas um pensamento profundo. Sorrias para ti mesmo. O cabelo quase grisalho, mas ainda com os reflexos loiros dava-te um ar vivido mas terno, os olhos verdes, esses jamais envelheceriam.
A voz profunda, grave e rouca não se manifestava há horas.
Deitaste a cabeça no meu colo, num gesto tão familiar, a pedir carinho. Passava-te os dedos ao de leve no rosto, nos cabelos rebeldes, nas rugas vincadas pelo sorriso, nos lábios, nos olhos. Os meus nunca saíram do Mar. Acendeste um cigarro, puxaste languidamente o fumo enquanto semicerravas os olhos, nesse jeito tão teu. Sopraste o fumo em direcção ao céu. Uma brisa com cheiro a maresia batia ao de leve nos meus cabelos castanhos.
Anoiteceu completamente. Levantaste-te, descalçaste-te. Caminhaste em direcção à água em passos lentos. Fizeste um gesto tácito para que te acompanhasse.
Segui-te. Parámos juntos, na exacta fronteira entre a areia e o Mar.
Demos as mãos, os corpos e as almas. Gastámos a pele cansada na sofreguidão do espírito.
E hoje que os teus olhos verdes se fecharam, sei que ainda vagueias, naquela praia esperando que chegue a hora em que te encontre de novo e me devolvas a tranquilidade que me roubaste no dia em que abandonaste a minha alma neste mundo sem o verde dos teus olhos.

24.4.05

Memórias...

Nesta aula em que o tempo não passa eu penso em ti.
Gostei tanto daqueles dez anos em que estiveste aqui comigo…
Gostei de quando brincámos com os martelos nas noites de S. João.
Gostava de quando me punhas entre ti e o guiador da tua mota e andávamos por aí, sem destino ou motivo, só para sentirmos o vento rasgar-nos a pele.
E quando eu ficava a olhar para as tuas tatuagens nos braços e tentava imaginar a dor que aquilo te teria causado!
Quando punhas aqueles filmes antigos da Guerra das Estrelas, e já sabias os diálogos de cor, como eu odiava aqueles filmes!
Lembro-me de quando te zangavas comigo porque me apanhavas a espreitar as prendas de Natal. E depois vestias-te de Pai Natal, e eu descobria logo que eras tu pois via o teu brinco através das barbas de algodão em rama.
Como me senti importante por transportar as alianças no dia do teu casamento!
Lembro-me como gostavas de sentir o teu filho dar pontapés dentro da barriga da tua mulher. Lembro-me também daquele dia em que ela fez as malas enquanto berrava e te acusava de coisas que eu não entendia, naquela altura…
E tantas outras coisas que recordo, umas com um sorriso, outras com os olhos molhados.
Mas o pior de tudo foi aquele dia de Abril em que o telefone tocou, e tu nunca mais voltaste. E eu nunca mais te vi, a não ser dentro da minha cabeça.
Agora quando quero falar contigo olho para o céu. Não gosto de falar com aquela placa de mármore, que te cobriu… num dia triste.
À Memória de José Paulo Soares.

Um lugar para sempre meu...

Um dia, uma pessoa de quem gosto muito disse-me que, por mais independentes que sejamos, numa dada altura, o nosso coração fica preso a duas coisas: uma pessoa e um lugar.
O lugar já o encontrei. Ficarei para sempre com a alma ancorada nesse sítio inundado de boas recordações. Nesse sítio mágico onde o Rio se funde com o Mar. Nesse sítio cheio de histórias que merecem ser contadas. Nessa Foz que será sempre o lugar onde pertence uma parte de mim.
Um lugar onde o ar cheira a sal, onde cada casa permanece intocável desde tempos distantes, e onde cada edifício que nasce estabelece uma ponte entre passado e futuro.
Onde jardins plantados à beira mar florescem a cada ano.
Quantas vezes caminhei naquelas praias? Quantos pensamentos navegam, ainda perdidos, naquelas águas? Quantas conversas com amigos ficaram extintas naqueles areais?
Cada visita que faço àquele lugar tão meu é sempre muito pequena, mas sinto-me sempre bem vinda.
Jamais esquecerei essa Foz, onde ainda desaguam para sempre as minhas lágrimas.

22.4.05

Angel



Angel came down from heaven yesterday
She stayed with me just long enough to rescue me
And she told me a story yesterday,
About the sweet love between the moon and the deep blue sea
And then she spread her wings high over me
She said she´s gonna come back tomorrow
And I said, "Fly on my sweet angel,
Fly on through the sky,
Fly on my sweet angel,
Tomorrow I´m gonna be by your side"
Sure enough this morning came unto me
Silver wings silhouetted against the child´s sunrise
And my angel she said unto me,
"Today is the day for you to rise
Take my hand, you´re gonna be my man,
You´re gonna rise"
And then she took high over yonder
And I said, "Fly on my sweet angel,
Fly on through the sky,
Fly on my sweet angel,
Forever I will be by your side"
(Jimi Hendrix)

20.4.05

My Butterfly

Fly, fly, my Butterfly
My sweet Butterfly
Find your way
Write your destiny
In the blue beautiful sky

Trust in your wings
Trust in my voice
I hope life bring you nice things
I hope you make the good choice

Kiss the wind
With your fired lips
Drink in the darkest cloud
The water that God weeps

Touch the head of the mountains
Painted by the white snow
Wash your eyes in the red fountains
Those who make the life grows

Fly, fly, loved Butterfly
I won’t let you die
My Butterfly

19.4.05

Para o Guilherme, meu amigo.

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado!
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ai! Saudade.
(Luís Represas)


Obrigada pela divisão de lágrimas, pela partilha de sorrisos. Pelos abraços distantes, pelo colo, pelas palavras.

17.4.05

Como o Sol e a Lua

Duas almas distintas, dois caminhos opostos. Um dia cruzaram-se nas ramificações infinitas de um mundo grandioso, que encolheu aos olhos de um homem possessivo.
Existe uma força que nos une, que nos torna aliados sem nunca podermos partilhar o mesmo espaço. Como o Sol e Lua.
Governas o dia, aqueces as almas das pessoas, tens um brilho inconfundível, majestoso, imperial.
Eu gosto da noite, do escuro, do mistério envolvente, sinto-me ligada ao mar e a minha forma de estar varia através de ti. Brilho com o reflexo da tua luz, e nunca ofusco os outros corpos cintilantes que permanecem na tela negra onde me deito.
És o âmago de outras existências que se reúnem à tua volta e te adoram com a força de uma permanência ancestral. Eu vivo camuflada entre os corpos de claridade que me prendem com a força cativa de uma vida de correntes invisíveis.
Comigo trago o vento gélido e o deserto arenoso, branco e vazio.
Não vivo sem ti, paraliso.
Quase nunca te encontro, mas quando acidentalmente, invulgarmente, nos cruzámos, todo o universo pára para ver o reencontro de duas forças opostas que se amam com a energia primitiva de uma ausência colossal.

15.4.05

Dá-me o tempo.





Deita-te em mim,
Descobre onde estás,
Escuta o silêncio,
Que o meu corpo te traz.
Não me deixes partir,
Não me deixes voar,
Como um pássaro louco
Como a espuma do mar.
Sente a força da noite
Como facas no peito,
Como estrelas caídas
Que te cobrem o leito.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
Perdidos no quarto
Sem dizermos adeus.
Adiamos a noite,
Balançamos parados,
Pela última vez
Os nossos corpos colados.
Sente a força que temos
Quando estamos assim,
Um segundo é o mundo
Que nos separa do fim.
Porque tens de partir
Quando há tanto a dizer?
Eu não sei começar,
Não te quero perder.
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
(Eu gosto das formas que tomas,
Como o toque do cristal,
E dos vidros,
dos poemas,
Da febre do metal)
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
(Pedro Abrunhosa / Pedro Abrunhosa)

13.4.05

Cá te espero

Há um ano que as lágrimas não param de cair. Os meus olhos formaram agora uma nascente de água salgada que corre destemida até encontrar o mar selvagem onde desaguam.
Deixaste o teu sabor na minha boca que te deseja com uma avidez de gigante.
A única coisa que sei de ti é aquela vontade animal de voltar aquele país desmistificado e desbravado pela descrença ocidental.
Como é que alguém pode querer viver num sítio como esse? Cheio de mágoas e antigas e de erros ancestrais que não abandonam aquela terra e envenenam tudo o que lá se cria.
Só podes ser muito diferente de mim. Eu nunca abandonaria este país onde à noite ainda consigo ver as estrelas. Onde posso mergulhar no Mar, despida de tudo e deixar-me invadir pelas histórias de navegadores e marinheiros de grandiosos tempos.
Onde posso fazer amor com o passado debaixo do olhar atento da Lua Nova.
Onde cada grão de areia conta uma lenda e cada criança que nasce encarna o espírito bravio de todos nós.
Já viste o que deixaste para trás?
Eu cá te espero, de olhos postos no céu azul pintado por um Deus protector.
Enquanto não chegas, peço ao vento do Norte que te leve os meus beijos e que te acarinhe enquanto as minhas mãos agarram o espaço frio e vazio que deixaste em mim.

11.4.05

Silent all these Years

Excuse me, but can I be you for a while,
My dog won't bite if you sit real still,
I got the anti-Christ in the kitchen yellin' at me again
Yeah, I can hear that
Been saved again by the garbage truck
I got something to say you know, but nothing comes
Yes I know what you think of me, you never shut up
Yeah, I can hear that
But what if I'm a mermaid, in these jeans of his with her name still on it
Hey, but I don't care, 'cause sometimes,I said sometimes
I hear my voice, and it's been
Here, silent all these years.
So you found a girl who thinks really deep thoughts
What's so amazing about really deep thoughts
Boy, you best pray that I bleed real soon...
How's that thought for you
My scream got lost in a paper cup
You think there's a heaven where some screams have gone
I got twenty five bucks and a cracker do you think it's enough
To get us there'Cause, what if I'm a mermaid, in this jeans of yours with her name still on it
Hey, but I don't care, 'cause sometimes, I said sometime's
I hear my voice, and it's been
Here, silent all theseYears go by will I still be waiting
For someone else to understand
Years go by if I'm stripped of my beauty
And the orange clouds raining in my head
Years go by will I choke on my tears
Till finally there is nothing left
One more casualty you know, we're too easy, easy, easy
Well, I love the way we communicate
Your eyes focus on my funny lip shape,
Let's hear what you think of me now, but baby don't look up
The sky is falling
Your mother shows up in a nasty dress
It's your turn now to stand where I stand
Everybody lookin' at you, here take hold of my hand
Yeah, I can hear them.
Tori Amos

10.4.05

O meu Porto de Abrigo

Quando todo o mundo se esqueceu de mim deixando-me à deriva dos meus prórpios pensamentos, tornaste-te no meu porto seguro, deixando que ancorasse nos teus braços nos dias de maior tempestade.
Foste tu quem me ajudou a acreditar novamente que nem sempre as nuvens são sinal de chuva, mas sim de que momentos depois o Sol entraria radiante e imperioso e me secaria todos os vestigios de uma noite tempestuosa.
Ensinaste-me a ler a alma das pessoas como tu lias a minha quando olhavas no fundo dos meus olhos e encontravas o maior dos meus tormentos, ainda que escondido por baixo de um sorriso.
E agora que tudo era tão perfeito, soltaste as amarras que nos ligavam e deixaste-me seguir o rumo da minha vida sem ti.
Sei que tomaste a atitude certa, pois um barco não encontra o seu destino amarrado ao cais, por isso agradeço todo o teu esforço para me segurar quando a minha vontade era ter afundado.
És e serás sempre o meu porto de abrigo.