19.5.05

A Janela Aberta

Vi-te ali tão despido
De medo, de vida, de sentido.
Com o coração a fugir
Pela janela aberta no teu peito,
Pintado de amarelo garrido.

Teus braços fraquejando
Da pose politicamente correcta.
Um sorriso pintado a sangue, latejando,
Nessa janela no teu peito aberta.

As mãos sujas de pó e suor!
Visível a infâmia da dor
Palpitando nos teus olhos verdes sem cor,
Extintos tal ferida sem ardor.

Louco que eras ontem!
Louca que me tornaste agora!
A razão dos olhos que não mentem,
Que já viveram e morreram outrora.

Nasceste há pouco para o mundo,
Viveste há muito para mim.
Possuíste a vida num segundo,
Agarraste as estrelas na tua mão,
Fugiste, caíste, pairaste no firmamento,
Jogaste o jogo cru e cinzento,
De quem desfiou a criação.

Rasgastes os laços vermelhos
Que uniam o meu peito ao teu.
Tiraste à sorte o teu caminho.
Decidiste seguir sozinho.
Naquele lugar oposto ao céu,
Reflectiste em mil espelhos
A dor profunda que sentia,
Que a vida toda persistia,
Nos meus olhos apagados,
Pelos teus, em tempos, molhados.

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