31.5.05

O Pomar e o Rio

- Nã faças isso Quim, ca tua
irmã é pequenina!
- Oh mãe, deixe tar quela nã se aleija…
E davas ainda
mais lanço no baloiço, até eu suster a respiração. Era como se eu fosse cheia de
ar, como um balão, e flutuasse. Via os meus pés a tocar as nuvens, e deitava a
cabeça para trás para me sentir mais desligada da terra. De repente, paravas o
baloiço e corrias, corrias muito. Eu saltava num segundo e corria, corria…
tentava apanhar-te, mas nunca conseguia. Encontrava-te depois, no pomar, debaixo
de uma árvore a tentar caçar um gafanhoto, ou a comer uma maçã, daquelas
vermelhinhas.
Aos Sábados de manhã íamos ao rio, levavas-me na tua bicicleta,
entre o selim e o guiador. E nunca travavas. Nem mesmo nas descidas. Eu fechava
os olhos, para me abstrair das imagens e ficar apenas pela sensação de a
qualquer momento levantar voo e tocar nas nuvens brancas e fofas que pairavam lá
no céu.
Sentava-me na margem, enquanto fazias os teus malabarismos com a cana
e com as linhas. E quando um peixe inocente mordia o isco e ficava preso no
anzol, chamavas-me a tremer de excitação, para que sentisse a força dele que
nunca era maior que a nossa. Puxávamos o carrinho, rodando, uma e outra vez, até
que ele aparecia, contorcendo-se, lutando pela vida. Tiravas-lhe o anzol da boca
e devolvia-lo ao curso do rio, sorrindo, sorrindo muito, como quem acaba de
salvar uma vida. Nunca sabias os nomes dos peixes, mas não os deixavas regressar
sem inventar um.
- Este é um peixe-prata, vês? Tem as escamas todas
prateadinhas…
E agora que eu cresci, e que os Sábados no rio não acontecem há
muito tempo, recordo-me do que fomos, não com saudade, mas com gosto. É como
quando se abre o álbum das fotografias e de repente as imagens começam a mexer,
ganhando vida e som…
Tenho saudades tuas. Desde que largaste as calças de
ganga velhas, cortadas pelo joelho, e as trocaste pelo fato cinzento que pareces
outra pessoa. Já não tens a velha bicicleta, e nem o vidro do teu carro baixas
para deixar o mundo entrar.
O sotaque que eu adoro, do meu velho Alentejo,
deixaste-o na faculdade, perdido entre ideias que não são tuas e maneiras
infalíveis de vender aquilo que ninguém quer.
É quando me sento aqui em
frente a um ecrã todo branco, com o capitular a piscar insistente, à espera de
uma ideia, que mais penso nos sábados no rio, e das corridas até ao pomar.
O meu
desejo para ti, meu bom irmão, é que num desses serões no sofá, com o portátil
no colo, tentando encontrar a frase perfeita para convencer alguém que o novo
creme de barbear é melhor que outro qualquer, te lembres de como eras e resgates
o rapaz traquina que gostava de dar nomes aos peixes, e que me fazia admirá-lo
por ser tão esperto e conhecedor daquilo que agora
esqueceu.

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