29.10.07

Dias assim...




Há dias assim. Dias que queremos ser mais.
E hoje quis ser mais, e melhor. Queria que tivesses orgulho na pessoa que sou.
Queria que me visses para além do que sou. Que me olhasses nos olhos e visses a minha história acontecer como quem lê um livro.
Queria que fossemos mais. Queria que tivéssemos um entendimento maior. Quase telepático
Queria que sentisses o meu olhar fixo no teu pescoço enquanto dormes desse lado da cama.
Preciso de mais. Não consigo ser só a que te acompanha, a que te dá a mão e às vezes o corpo. Não posso ser só a que te ouve. Preciso de ser ouvida também, e mais do que isso entendida.
Já passou o nosso tempo. Já não sentimos quem somos. Já não vejo em ti o brilho cósmico do universo. Caiu o pano e a expectativa não compensa a surpresa.
A música que ouvia sempre que estava contigo deixou de tocar. A cor apagou-se. Apagamo-nos.
Chegou o dia que prevíamos. O dia que não queríamos, mas que estava a chegar.
Chegou o dia. Há dias assim. Foi hoje. E o mundo não vai ruir.
Vamos sorrir e lembrarmo-nos do que fomos. E que fomos muito, que já não somos mais.

26.10.07

Carta aberta ao meu amor antigo

Tenho andado a pensar em nós. E sabes? Chego sempre à mesma conclusão: que não foi perfeito, mas não poderia ter sido de outra maneira.
Nem sempre o que dissemos foi o mais correcto, nem sempre fomos adultos o suficiente para saber que só nos estávamos a magoar um ao outro. Nem sempre mostramos o que sentíamos. E deixamos que coisas secundárias como o orgulho ou a raiva se impusessem ao que tínhamos.
Nunca falei contigo tão abertamente, por culpa minha, eu sei. Estou a aprender agora a mostrar o que vai cá dentro, sem medo. Estou a aprender a confiar. Eu confiava em ti, nunca duvides, mas não tinha a capacidade de confiar o que vai cá dentro a ninguém.
Não quero agora relembrar mágoas antigas, mas também não me contavas o que se passava contigo, vivíamos vidas diferentes que nunca se manifestavam quando estávamos juntos. Nunca partilhamos alegrias, tristezas, desilusões… E foi isso que corrompeu com o que tudo o resto que era nosso.
Já não temos idade para mal entendidos. Temos que nos olhar de frente e trocar as armas por palavras, ainda que estas firam mais que as primeiras.
Não vamos mais atirar culpas que vão e vêm e nunca chegam a lado nenhum. Não vamos reacender a raiva que nos atirou para mundos diferentes.
Vamos tentar olhar um para o outro com a mesma ternura da primeira vez, sem gritos, sem apontar o dedo. Vamos cicatrizar as feridas que nos aplicámos, e começar de novo. Porque descobri que sem ti não valeu a pena.
Vivo sem ti, não sou patético para te dizer que não. Mas se for contigo será, com certeza, muito melhor.

24.10.07

Porto

Hoje foi um dia bom. Um dia de chuva que acabou bem.
Um dia dedicado a mim.
Vagueei pelo Porto, esta cidade que me é tudo, como não fazia há mais de um ano.
Uma tarde dedicada à preguiça e a descobrir sítios novos em sítios antigos.
Uma casa velha e medonha que encerra um jardim encantado com pós de incenso e tilintares mágicos de vários objectos. Um chá secular que me despertou sentidos novos entre o paladar, o tacto e o olfacto. A arte de transformar em liquido qualquer sabor, qualquer coisa; o mesmo que Grenouille fazia com os cheiros.
Um jardim aconchegante onde não existe sentido de propriedade, um jardim onde somos visitados por gatos curiosos que vêm ver quem está desta vez naquele sitio que é de todos.
Saí de lá com os sentidos bem abertos. Apetecia-me absorver tudo à minha volta. Apetecia-me que aquele céu azul não acabasse.
Desci aquele pedaço de rua até a um jardim ainda maior, aquela enorme varanda sobre o rio.
Deitei-me na relva. Senti o cheiro da relva. E fiquei por lá entre confissões e gargalhadas. Fiquei com fragmentos dessa relva na roupa e no cabelo e senti-me bem.
Vi o Sol a pôr-se para além daquela ponte branca e apeteceu-me sorrir.
Estava frio e só me apetecia sorrir.
Mergulhei por entre as pessoas. Caminhei nas mesmas ruas que caminho há anos e vi tudo como pela primeira vez: aquelas paredes velhas e quentes, aquele granito secular, os telhados gastos pelo tempo, as janelas intemporais…
Cheguei à baixa e tudo estava como sempre: um burburinho típico de pardais atarefados e apressados, um corre-corre de formigueiro. E apeteceu-me sorrir.
O cheiro das castanhas assadas e os cartuchos inventados de listas telefónicas. As pessoas de sempre, os pregões de sempre.
Hoje passei o dia pelas ruas do Porto e nunca me senti tão em casa.

23.10.07

Outono que fomos

Foi só uma noite.

Mas fomos tanto nessa noite.

Fomos tempo indiferente. Fomos luz e segredo. Fomos gargalhadas e pranto. Fomos sangue que ferveu, fomos mais que o que somos.
Roubamos as palavras. Abrimos portas proibidas. Fomos horas a mais que a noite tem.
Fomos poetas de rua, malabaristas de olhares.
Travamos o rio que flutuou para além da razão.
Fomos inimigos e lutamos na mesma guerra de sorrisos.
Dançamos.
Dançamos sem vontade de quebrar a quietude da alma que se encontrou de novo.

Fomos só uma tarde.

Uma tarde de Outono que resgatou o SOL.
FOMOS tanto nessa tarde. Fomos mais que a soma que conseguimos.
Fomos fogo profundo no espaço. Fomos homens e crianças.
Aprisionamos o medo e fugimos. Navegamos o mar que ainda não existe.
Fomos mãos. Fomos pele e saliva.
Corrente sanguínea.
Fomos água e evaporamos.
Caímos de novo e inundamos a terra. Diluvianos, apocalípticos.
Fomos um número ímpar, quando juntos éramos apenas dois.
Cartas que rasgadas faziam mais sentido.
Fomos imagens cinematográficas e fomos verdade.
Fomos verdade.
FOMOS SOL.

Fomos só uma hora.
Mas fomos mais nessa hora que qualquer um num século.
E fomos tanto…

16.10.07

A Pedra

António Lobo Antunes prometeu, um dia, amar uma pedra.

Não sei se será boa ideia. Já o fiz, há algum tempo atrás. Já amei uma pedra. Penso eu… Se não era uma pedra, era algo parecido: sem vida, sem expressão, sem movimento. Um rochedo secular que não cedia à erosão.
As mãos eram frias, graníticas. O toque pelo qual ansiava concretizava-se áspero, desconfortável. A pele de calcário não chamava por mim.
E no entanto, eu amava-a. E como eu amava aquela pedra.
A pedra que tinha nome. Um nome que eu esqueci. Porque o passado é assim. Escrevemo-lo em papel de arroz que guardamos na memória. E esta por sua vez altera-o, enfeita-o, ou apaga-o.
Tinha planos para a minha pedra. Daqueles que projectamos na nossa cabeça, uma e outra vez até estarmos confiantes. Ia esculpi-la. Ia pegar num cinzel de palavras e transforma-la numa obra-prima.
A minha pedra…. Que nunca foi minha.
A minha pedra que era feia, tosca, vulgar… E onde eu via topázios, rubis e esmeraldas.