24.10.07

Porto

Hoje foi um dia bom. Um dia de chuva que acabou bem.
Um dia dedicado a mim.
Vagueei pelo Porto, esta cidade que me é tudo, como não fazia há mais de um ano.
Uma tarde dedicada à preguiça e a descobrir sítios novos em sítios antigos.
Uma casa velha e medonha que encerra um jardim encantado com pós de incenso e tilintares mágicos de vários objectos. Um chá secular que me despertou sentidos novos entre o paladar, o tacto e o olfacto. A arte de transformar em liquido qualquer sabor, qualquer coisa; o mesmo que Grenouille fazia com os cheiros.
Um jardim aconchegante onde não existe sentido de propriedade, um jardim onde somos visitados por gatos curiosos que vêm ver quem está desta vez naquele sitio que é de todos.
Saí de lá com os sentidos bem abertos. Apetecia-me absorver tudo à minha volta. Apetecia-me que aquele céu azul não acabasse.
Desci aquele pedaço de rua até a um jardim ainda maior, aquela enorme varanda sobre o rio.
Deitei-me na relva. Senti o cheiro da relva. E fiquei por lá entre confissões e gargalhadas. Fiquei com fragmentos dessa relva na roupa e no cabelo e senti-me bem.
Vi o Sol a pôr-se para além daquela ponte branca e apeteceu-me sorrir.
Estava frio e só me apetecia sorrir.
Mergulhei por entre as pessoas. Caminhei nas mesmas ruas que caminho há anos e vi tudo como pela primeira vez: aquelas paredes velhas e quentes, aquele granito secular, os telhados gastos pelo tempo, as janelas intemporais…
Cheguei à baixa e tudo estava como sempre: um burburinho típico de pardais atarefados e apressados, um corre-corre de formigueiro. E apeteceu-me sorrir.
O cheiro das castanhas assadas e os cartuchos inventados de listas telefónicas. As pessoas de sempre, os pregões de sempre.
Hoje passei o dia pelas ruas do Porto e nunca me senti tão em casa.

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