5.12.08

No princípio era o verbo.

Não, não era. Na história que eu conheço, no princípio era o silêncio e a serenidade.
E do silêncio despertou um burburinho, um rumor longínquo. E da serenidade um palpitar ténue, pequeníssimo, insignificante. Que foi crescendo.
Cresceu, criou raízes. Raízes invasivas que se fincaram. Álgicas, indiferentes.
E nesse pedaço de nada onde havia silêncio e serenidade, há agora uma massa indefinida que não se sabe se é carne, e não se sabe se é cancro.
Por isso eu sei que no princípio não era o verbo. Se fosse eu saberia pegar nesse verbo e dissecá-lo. Fazer esse verbo, que evoluiu desde os primórdios, regressar à sua forma original, e assim entender o que ele significa. Por isso no princípio não era o verbo. Se fosse, era tudo tão fácil.

3.12.08

Again... The words

É nas palavras que eu me encontro. A vida decide-se na hesitação de reticências ou na assertividade de um ponto final.Segue-se em frente num novo parágrafo. E com dois pontos fica tomada uma decisão.É nas palavras que eu me encontro. E quando essas palavras se encontram, se juntam e formam frases, que por sua vez se encontram para contar uma história, é nessa história que se encontra o que sou, vi e vivi.

21.4.08

it's all so quiet...


Existe no nosso silêncio uma leveza, uma presença demoradamente açucarada.

Um ronronar nos lábios que não se quebra, um palpitar pestanudo.


O meu olhar que se desenrola entre os teus cabelos, as maçãs do rosto, o pescoço e perde-se na essência que te envolve.

Uma polpa de ternura que fica no palato e não se pode desfazer.

17.4.08

Arrenda-se


Eram hoje quatro da tarde quando, de repente, uma janela se abriu no meu peito e o meu coração desatou a correr. Fugiu para sempre e já não volta, tenho a certeza. Deve ter sido pelas coisas que lá se passavam ultimamente... E ficou lá um vazio estranho, incomodativo. Tenho, desde então, nesse lugar um letreiro que diz: Arrendo T1 com vistas p'ro mundo.


Pode ser que resulte...

27.3.08

Solta-se o beijo...

Parece-me, agora, que ressuscitei demasiado depressa da nossa afectuosa embriaguês litúrgica. Desgastamos a alma em, vão, ao dançarmos nesta intermitência existencial.
Dói-me a garganta das vezes que não gritei contigo. E continuo desesperadamente a tentar tirar da minha cabeça o dia de amanhã. Mas está difícil. Recorro continuamente a âncoras presentes, à rotina… Porque estou farto de vaguear no futuro, e no futuro não há vida, só suposições.
Vi-te partir com o mesmo sorriso indecifrável com que te vi chegar. E perdi-me no beijo que me sopraste.

29.2.08

Your body is a wonderland

É bom ficar contigo nesta paz domingueira entre as letras impressas do jornal e as almofadas vincadas.
Observar as linhas do teu corpo que espreitam pela roupa desalinhada de doze horas de sono.
Os cabelos entrançados numa espiga dourada pendem-te nessa descontracção inconsciente e rotineira.
E acordas. Feliz. Relaxada. Sorridente. E todo o teu corpo me cumprimenta num espreguiçar prazenteiro.
E ficas assim a absorver-me e a observar-me. Com essa calma tipicamente felina, de quem, repentinamente, se libertará num salto da monotonia apreciada.
Mas ainda cá estás. E observo-te de volta: o corpo queimado pelo sol, as sardas na cara e no peito, os olhos verdes rasgados, o ar de menina… Sei que o que recebes de volta não é o melhor: as minhas rugas vincadas, os meus cabelos grisalhos, o meu ar permanentemente exausto, a minha barba preguiçosa de dez dias. Não tenho a beleza corriqueira e alegre dos teus vinte anos, mas, mesmo assim, ainda cá estás. Ficas, mas não te impões.
E eu secretamente gosto e secretamente tenho medo de te perder. Tenho medo dessa tua presença volátil, desse teu jeito de estar intermitente. Mas não te digo…
E eu até que gosto dessa tua maneira de gostar de mim. Da insignificância que as palavras têm connosco… Nunca dizes que me amas, nunca o vais dizer, mas ofereces-me a alegria frutada do teu corpo de uma forma leve e desprendida. E são nos teus gestos que moram as melhores maneiras de gostar de mim.

26.2.08

Esta coisa de gostar de alguém...

«Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?(...)»
Fernando Alvim (Texto Completo)

21.2.08

Eclipse



"Tiveste, na minha vida, a duração de um eclipse."








*Mas ainda ergues a cabeça para me ver acontecer...

19.2.08

Lost and Found

Foto de Ruben Andrade

Um passo à frente. Já nada é como era. Do passado... só as memórias. Uma vida que começa no mesmo corpo. As lágrimas, já não as conhece. Basta-lhe agora o silêncio como muralha. As pegadas não as pode apagar, essas só o tempo apaga. Eventualmente... Das feridas, restam as cicatrizes, que ficarão para sempre. Viva mais cinco ou cinquenta anos. Nem o olhar é como era, nem poderia ser... Depois do que viu. Mas isso já não o afecta, já se habituou: à morte e à dor. Quase que as sentiu. Antes que acontecesse arrancou o coração com as próprias mãos. Fez um buraco no deserto e enterrou-o, bem fundo. Onde já não o conseguia ouvir. Caminhará sozinho, para sempre. Sem olhar para trás. Porque quem olha para trás acaba por se perder. E perdido nunca mais estará. Porque no meio de tudo o que lhe era exterior, encontrou-se a si mesmo. Puro, egoísta, transparente. Sem sentir. Como a vida lhe ditou.
A estrada não pára. Ele... muito menos.

17.2.08

Feels like home



Há um abraço que chega sempre no momento certo. Um abraço seguro, sentido.
Fecho-me nesses braços e já nada importa. Estou segura.
É um abraço perspicaz e oportuno. É o Teu abraço.
E quando ele acontece eu sinto-me em casa.

14.2.08

Diplomata

Saio demasiadas vezes de dentro de mim a bater com a porta.
Fico no patamar de punhos cerrados para não perder as estribeiras.
E depois apareces tu, com dois novelos de paciência e um tratado de paz para eu assinar comigo mesma.
Tens o dom da diplomacia e sabes domar a minha tristeza com palavras doces e artimanhas circenses.
E é por ter o teu olhar a desenrolar no meu que ainda não peguei nas malas e me deixei ao abandono.

11.2.08

Music makes me lose control


Dá-me o teu corpo, para eu encontrar nele o ritmo certo para as minhas mãos.

Deixa-me aprender na tua boca o timing certo para respirar.

E que a tua vontade dite o movimento da caixa de percussão dentro do meu peito.

6.2.08

- I want Candy*



* - Hello, my name is Candy;)

3.2.08

Estado de Griiiiito



Deixaste hoje a minha vida em estado de grito.

Alguém que grite comigo, para não me sentir tão sozinho!

2.2.08

Beyond Beautiful



Ofereço-te a ternura envolta em papel de seda.

Rasga-o devagarinho.

29.1.08

Time Machine


Olha o sol! É dia lá fora, mas aqui está agora a anoitecer. As coisas cá dentro acalmam, silenciam. Caiu a escuridão serena. Estendo as pernas ao longo deste manteiro aconchegante e penso… A minha memória percorre os últimos dias, faz o inventário do tempo que passei contigo. Muito tempo, muitos dias seguidos. Um após o outro. Muitas manhãs a esgueirar-me da cama devagarinho para não te acordar, sair de casa e voltar. E tu no mesmo sítio, na mesma posição, à espera que te acordasse. E só quando isso acontecia a casa nascia de novo. A música, os livros abertos, o cheiro do café fresco…
As conversas de pernas a baloiçarem sobre o muro, as velas acesas no pátio, as gargalhadas apetitosas de noites de verão. Tirar o relógio do pulso, a recusar-me que o tempo passasse…
Tudo isso acabou. É triste… Agora só te posso visitar na memória, na máquina do tempo que criei na minha cabeça.
(foto de Vieirinha)

17.1.08

Foi ele que disse...

«Os homens gostam mais de amar, as mulheres de ser amadas. Os homens têm medo de ser amados. Apetece-lhes fugir. As mulheres não gostam de se ver apaixonadas. Perdem o respeito por si próprias. E têm medo de sofrer e de serem vistas.
Podem ser disparates, mas são eficazes. Uma rapariga quer-se livre, desprendida, sujeita apenas à vontade dela. Assim é mais fácil uma pessoa apaixonar-se. E, quando chega a altura da despedida, é mais fácil deixá-la, para mais.
Sempre me dei bem com as mulheres que se limitavam a achar-me uma certa graça. Admiro-as. Respeito-as. Não faço nada que as faça realmente mudar. Se há uma qualidade que provoca paixão em mim, sem dúvida, a indiferença. A combinação de tédio inteligente e beleza descuidada, é absolutamente irresistível. Aquele ar “eu sei lá…”. Aquele ar “tanto me faz…”.
Se é preciso amar, para tornar a experiência mais imprevisível e interessante, sou eu que me encarrego disso. Não estou cá para outra coisa. Às raparigas só lhes peço que façam o que lhes apeteça, se possível sem disfarçar. É em estado bruto que mais me impressionam. Constrangidas, seja por amor ou compaixão ou sentido de dever, perdem mais de metade do que são. É o egoísmo e o comportamento irresponsável que lhes dão dignidade. As mulheres ficam bem, é quando se riem. Perdem tudo quando se põe a chorar.»

MIGUEL ESTEVES CARDOSO in « CEMITÉRIO DE RAPARIGAS»

Até que concordo...


10.1.08

New Year's Resolution


Nunca fiz uma lista de "new year's resolutions".

Mas este ano hei-de deixar de ser tão curiosa, já que só descubro aquilo que não quero... :(

2.1.08

Torture me true

“Desorientas-me. Passo-me contigo por saber que és uma
independente de merda que não precisa de mim para
nada…”



E eu oriento-me nesta existência volátil de não precisar do
que tenho, mas cativa-lo por saber que, apesar de
suportável, o vazio é uma tortura.