1.12.06

Dedicatória

Porque a música é viciante, porque esta é linda, porque esta é em honra das cantorias no carro, e que se lixem as lamechices, porque esta é " à nossa"! =)

Jason Mraz
I'm Yours

Well you done done me and you bet i felt it
I tried to be chill but you're so hot that i melted
I fell right through the cracks
And i'm trying to get back
Before the cool done run out
I'll be giving it my bestest
Nothin's going to stop me but devine intervention
I reckon its again my turn to win some or learn some

I won't hesitate no more
No more it cannot wait, i'm yours

Well open up your mind and see like me
Open up your plans and damn you're free
Look into your heart and you'll find love love love
Listen to the music of the moment maybe sing with me
Ah la peaceful melody
Its your godforsaken right to be loved love loved love love

So i won't hesitate no more
No more it cannot wait i'm sure
Theres no need to complicate
Our time is short
This is our fate, i'm yours

I been spending way too long checking my tongue in the mirror
And bendin over backwards just to try to see it clearer
My breath fogged up the glass
So i drew a new face and laughed
I guess what i'm sayin is there ain't no better reason
To rid yourself of vanity and just go with the seasons
Its what we aim to do
Our name is our virtue

I won't hesitate no more
No more it cannot wait i'm sure
Theres no need to complicate
Our time is short
It cannot wait, i'm yours

31.10.06

Como pequenos gomos de tangerina...

Sabes o que me tranquiliza no meio de todas estas coisas confusas que me rodeiam? É saber que posso sempre contar contigo, é saber tenho sempre o teu colo quando as coisas correm mal, e que te tenho a olhar por mim. Não são só as crianças que precisam de colo, é toda a gente. Eu e tu também.
O nosso à vontade com alguém só é total quando os silêncios são confortáveis, e os nossos silêncios são tão bons quanto as nossas conversas pela noite dentro, tanto quanto as chamadas de telemóvel que duram quatro horas e passam a voar.
Há dias em que estou rodeada de gente e sinto-me a pessoa mais só do mundo. Ás vezes apetece-me virar as costas a todas as conversas de circunstância que não têm mais nada de interessante para acrescentar à minha vida. É nesses dias que mais sinto a tua falta, apesar de estar contigo todos os dias.
Ter-te por perto torna os meus dias mais cheios. A tua companhia é das melhores que eu conheço.
Adoro as nossas brincadeiras, mesmo quando pareces voltar a ter cinco anos e me puxas os cabelos, deitas a língua de fora e me apertas o nariz. E depois és capaz de crescer de repente, quando eu preciso de encostar a cabeça ao teu peito e ficar assim um tempo, enquanto me acaricias o cabelo e dizes que vai ficar tudo bem.
És todos os homens perfeitos que eu precisava de ter na minha vida: um melhor amigo, um irmão mais velho e o homem com quem eu quero ficar para sempre.
O nosso mundo é perfeito mesmo com as suas imperfeições, de amuos e de birras que passam mas que durante minutos parecem querer corromper tudo de bom que já existe.
É bom ter-te comigo, e gosto de saborear isto que temos aos pouquinhos sem pressa, porque tenho medo que isto um dia acabe.
Quando estou deitada prestes a adormecer e quando estamos naquele ponto em que mil e uma imagens nos passam pela cabeça, as mais frequentes são aqueles nossos momentos de cumplicidade, aqueles momentos tão doces como pequenos gomos de tangerina. Aqueles momentos em que o teu olhar diz tudo o que as palavras só podiam atrapalhar
Agora que sei que te tenho comigo como um prolongamento de tudo o que sou e penso, que sei que a palavra nós ganhou um sentido completamente diferente, sei que mesmo que isto não seja para sempre, vai ficar para toda a vida comigo.

20.10.06

Mundo Cor-de-Rosa


Já alguma vez se levantaram às sete da manhã com uma energia colossal e com vontade de abraçar o mundo? Já alguma vez estiveram num estado de euforia tão profunda que qualquer aspecto da vida mundana vos dá vontade de sorrir?
Sinto-me assim nos últimos dias. Acordo feliz. E as coisas parecem melhores. Mais leves.
É engraçado como o nosso estado de espírito muda as perspectivas das coisas. Gosto muito mais de tudo o que me rodeia, e o mundo parece-me mais cor-de-rosa.
Apercebi-me de como é bom ficar sentada à beira rio de pernas estendidas e a apanhar sol, como é bom passar a tarde com os amigos sem fazer nada de produtivo, só a aproveitar a companhia de quem gostamos, de como não faz mal nenhum uma pequena dose de loucura.
Apetece-me dançar de olhos fechados sem me importar se estou a parecer ridícula aos olhos de alguém e mostrar o dedo a quem me contrarie. Apetece-me dançar: na rua, no autocarro, na mesa de reuniões…
Apetece-me estar contigo. De correr que nem louca só para estar ao pé de ti, só para te ter por perto nem que seja por cinco minutos.
Quero trazer-te para o meu mundo. Quero saber como é a tua pele molhada pela chuva.
Preciso de ouvir as tuas gargalhadas e de te olhar nos olhos só para te sentir mais próximo.
Quero ignorar todas as regras, e todas as vozes que me dizem que isto é errado. Quero tirar o som a todas as coisas exteriores que me querem convencer que por baixo desta pintura tão cor-de-rosa há um mundo sombrio.
O meu mundo sou eu que o pinto. A tinta permanente.

24.9.06

Grãos de Areia

Perder alguém de quem gostamos é perder o rumo a seguir e ficar sem referências para seguir em frente. E é muito penoso encontrar de novo o caminho traçado e voltar a percorrê-lo.
Mas saber que estamos a perder alguém, apercebermo-nos disso e nada fazer, não reagir, é um misto de cobardia e apatia tão profundo que parece quase irreal.
E é isso que está a acontecer comigo. Estou a perder-te. É cada vez mais visível a distancia que nos assola. Uma falha sísmica que se abriu no nosso meio, cada vez mais profunda que nos afasta e parece impossível construir uma ponte para unir estes dois pontos distantes.
Estás a escapar-me por entre os dedos como finíssimos grãos de areia. E eu vejo os segundos a morrerem, vejo a contagem decrescente perto do fim. E esta bomba relógio que construímos com precisão cirúrgica vai rebentar. E nesse dia vamos gritar, vamos bater portas que nunca mais vão abrir, até ficarmos num silêncio sepulcral que nunca mais se vai quebrar.

5.9.06

Laços

Fazer as malas e sair de casa foi a melhor ideia que eu tive nos últimos anos.
Nunca fui de apegos. Nunca criei laços com nada nem com ninguém. No final de contas acabou por ser bom. Assim consigo viver por minha conta, sem dependências nem saudades.
Nunca senti saudades. Sentir saudades é querer algo de volta, e eu não sei viver no passado.
Peguei nas coisas e saí. Foi tão simples quanto isso.
Já passaram dois meses e voltar nunca me passou pela cabeça.
Não sabia exactamente para onde ir, só sabia que era para sul. O indefinido não me assusta.
Viajei de comboio e depois à boleia. E acabei por chegar a Sines. A primeira paragem, claro, só podia ter sido na praia.
E fui ficando. Aluguei um quarto na Av. Vasco da Gama, e como até tenho sorte arranjei trabalho numa livraria.
Pela primeira vez parece que estou a criar laços com alguma coisa. Nem que seja com esta vista da janela do quarto, que me traz uma paz solitária como eu sempre precisei e nunca tive.
Acho, cada vez mais, que não nasci para casar, ter filhos, férias em Agosto, uma carrinha familiar… Nasci para seguir o caminho que eu quero, se precisar de cair tenho dois braços para me suportarem e ajudarem a levantar.
Nasci para me descalçar quando quiser e caminhar no areal, para entrar no mar só por prazer nem que a água tenha um ou dois graus negativos.
É claro que já me apaixonei, não sou nenhum bloco de cimento. Mas nunca houve ninguém que me prendesse, que me fizesse ficar. Há-de haver alguém, espero. Pois não consigo aceitar que nunca vá encontrar alguém que não seja tão passageiro como todas as outras pessoas na minha vida. Tudo o que eu vi nessas pessoas, que me fez apaixonar por elas, nunca foi suficiente para que fosse duradouro. Como já disse, nada me fez ficar.
E agora a minha nova vida, tão por minha conta, reserva-me surpresas de certeza. Talvez me encontre, e mude esta minha maneira de ser tão volátil e desprendida. Senão, se não houver ninguém que me faça ficar e criar laços inquebráveis, tenho sempre o meu mar que me recebe sempre como quem recebe quem lá mora, quando volta de uma longa viagem.

27.8.06

Moscas en la casa

Mis días sin ti son tan oscuros
Tan largos tan grises
Mis días sin ti
Mis días sin ti son tan absurdos
Tan agrios tan duros
Mis días sin ti
Mis días sin ti no tienen noches
Si alguna aparece
Es inútil dormir
Mis días sin ti son un derroche
Las horas no tienen principio, ni fin
Tan faltos de aire
Tan llenos de nada
Chatarra inservible
Basura en el suelo
Moscas en la casa
Mis días sin ti son cómo un cielo
Sin lunas plateadas
Ni rastros de sol
Mis días sin ti son sólo un eco
Que siempre repite
La misma canción
Pateando las piedras
Aún sigo esperando que vuelvas conmigo
Aún sigo buscando en las caras de ancianos
Pedazos de niño
Cazando motivos que me hagan creer
Que aún me encuentro con vida
Mordiendo mis uñas
Ahogándome en llanto
Extrañándote tanto
Mis días sin ti
Cómo duelen los días sin ti.

16.8.06

1001 Imagens

Já não sou nenhuma miúda. Embora as aparências iludam. Mas sinto que nos últimos tempos cresci imenso. Não é assim tão positivo. Por vezes as coisas ficam muitíssimo baças e confusas e eu tenho saudades. Muitas saudades do tempo em que tudo era fácil e podia ignorar o que se passava. Agora não. Não posso ignorar nada! Se o fizesse as coisas pendentes amontoavam-se e uma dor de cabeça transformar-se-ia num aneurisma prestes a rebentar como uma bomba relógio. Isto tudo faz como me sinta muitas vezes com oitenta anos… Exausta.
Não penses que ando a inventar desculpas. Não é verdade. Eu contigo não preciso nem consigo inventar desculpas.
Contigo sou inteiramente transparente. Nunca te menti e sabes disso.
Contigo ficava totalmente desarmada o que desencadeava uma sinceridade extrema.

- Nunca dizes que me amas…

E nunca disse. As palavras não tornam as coisas em factos. E mentir-te seria ferir-te.
Guardo para sempre 1001 imagens de algo que foi perfeito: a dança na praia, o meu quarto cheio de girassóis, os bilhetes no vidro do carro, a ida às grutas, o jantar em Sesimbra, a janela…
Escrever-te torna tudo mais fácil, se te fosse ver e falasse em voz alta não conseguiria acabar a primeira frase sequer.
Tenho chorado como nunca, mais que uma vez por dia.
Sinto a tua falta. Sinto a nossa falta. Sinto falta de tudo que tínhamos e ainda do que ficou por viver.
Tenho saudades de te ver chegar e da forma como te despedias quando tinhas que sair.
Desta última vez nem nos despedimos. Só um bilhete na almofada:

“Volto tarde. 1-12-14-19-5…”

Horas mais tarde o telefonema. Acho que voei até ao Amadora – Sintra. Em vão…
Ainda não consegui desfazer as malas acreditas?
Talvez nem seja preciso. Se calhar pego nelas e vou embora. É dificílimo para mim ficar aqui. Tropeço em ti a toda a hora.
Deixei tudo como estava: os livros, as roupas, até a toalha no chão da casa de banho.
Não quero perder as memórias que tenho de ti.
Não vais ler esta carta, mas precisava de abrir a comporta e deixar sair a corrente.
Sei que ainda vou chorar dias a fio… Não por tua causa, mas por minha que sem ti sou do tamanho de uma formiga.

8.8.06

Ausente

Ontem tive uma vontade avassaladora de estar contigo. De te ter por perto.
Ando a sofrer de uma especie de doença bipolar: ou tenho picos de felicidade porque sei que gostas de mim e o que temos é uma coisa maior e impossível de descrever, ou morro de angústia porque te sei longe, quase inatingível.
As coisas já não correm como de costume. E a tua falta faz-me mal. Não consigo que nada saia bem à primeira.
Ando muito introspectiva, a remexer o que vai cá dentro, tentando encontrar não sei o quê que me devolva à realidade que conhecia há uns meses atrás.
Não é fácil, sabias? Já nem as noites me salvam. Ou perco horas a folhear um livro, tentando a custo seguir a história. Ou escrevo-a eu, como agora, devorando cigarros nas horas vagas e infinitas.
Mas ontem foi pior. Não aguentava o sufoco de quatro paredes, tive que sair. E às quatro da manhã ainda vagueava na rua, procurando-te em cada esquina. Como sempre acabo na praia, um refúgio que é de outra realidade.
Voltei a casa em piloto automático. Já não me sentia em mim de tão cansada. Dormi quase um dia inteiro.
Quando acordei o vazio ainda lá estava. Não ia embora e não havia nada que o preenchesse que estivesse fisicamente ao meu alcance.
Viver assim afecta-me profundamente. É como ter um buraco negro no peito que cresce de dia para dia e que vai acabar por ser maior que eu e que todas as minhas forças.
Dizem que se desejarmos muito uma coisa e se concentrarmos todas as nossas energias positivas a imagina-la, mais dia menos dia acaba por acontecer. E eu não tenho feito outra coisa. Imagino-te várias vezes por dia a regressar. Vejo-te com ar cansado a entrar no avião, a procurares o teu lugar, a lançares um último olhar pela janela àquela terra maldita que te prende há quase dois anos.
Mas não adianta, são apenas visualizações, de algo que não está para breve.
E eu espero. Que é a única coisa que posso fazer.

2.8.06

Beijos com chocolate quente


Neste mundo imenso há definitivamente algo que conspira para que cheguemos ao nosso caminho, e para que encontremos a nossa razão de cá estar.
Quais são as probabilidades de seres perfeito para mim? De encaixares de forma precisa dentro da minha cabeça?
Somos exactamente da mesma altura, nascemos no mesmo dia e tivemos a sorte de estar no mesmo exacto momento no sitio que o destino escolheu para nos encontrarmos.
Sabemos as nossas canções preferidas de cor, temos os mesmos pricipios e sofremos dos mesmos medos.
Como eu, sabes estar presente quando é preciso e gostas de te isolar em ti mesmo quando não és necessário. Observamos o mundo da mesma prespectiva e não sofremos de mentalidades moldadas e abafadas.
Sabemos deixar os outros respirar e não padecemos de ansiedade crónica com toques de impaciência.
Descobrimos isto tudo numa tarde em que trocámos beijos com chocolate quente.
E no meio de tantas coincidências tinhamos que ser do mesmo sexo... Mas de Homem para Homem: quero lá saber!

21.7.06

As praias desertas

Esta música foi-me apresentada
no pior dia da minha vida, por alguém que nunca vou esquecer.

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois

A este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar

O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir
Porque tudo na vida há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois

António Carlos Jobim

24.5.06

O medo e o escuro

Não falta muito. Prometo. Só cinquenta e seis degraus até tua casa. Subo, devagar eu sei. Preciso de pensar. Projectar um filme na minha cabeça. Com um final feliz. Para não ter medo.
O meu medo. Aflige-me. E a dúvida persiste. Pequenas pancadas. Subtis. Para ver se esqueço.
Já vejo a tua porta. E sei que em momentos a abres, com um sorriso. E abres o peito e os braços e deixas-me entrar.
E se eu tivesse coragem ficava por lá.
E já te ouço. A voz baixa e bem colocada.
A porta abre-se. E lá dentro tudo escuro. Cá dentro também. Porque no escuro ouve-se melhor.
E na tua casa cheia de gente não há mais ninguém para além de nós. A música não toca e tudo está calmo.
Sei que o meu mundo desta noite não passa. Vai acabar para sempre, pelo menos da forma como o conheço.

Já disse adeus às coisas lá de fora.
E sem palavras depositas na minha mão o pequeno milagre. Está na minha mão. E tu olhas-me como quem me abraça.
Sei que tens medo que eu desista. Que volte atrás e corra daqui. Mas não. Isso não acontece.
Já não volto atrás. Abro o frasco castanho e sorvo-o, sem respirar.
Saímos da multidão e refugiamo-nos na varanda. O mar está sereno, como num quadro.
Quando amanhecer estaremos longe, e nunca tão perto.


( E vai ficar tudo bem. Isso eu sei...)

5.4.06

Da Paixão

Quando alguém está apaixonado tem uma característica invulgar de filtrar as coisas más na outra pessoa e vê-la simplesmente com todos os pormenores que fazem com que ela seja especial. Isto é um facto provado, por isso ouvimos vezes sem conta que o amor é cego. Talvez seja… Mas se o amor é cego a paixão sofre de hipertimia. De um momento para o outro o Sol tem um brilho diferente, as cores estão mais vivas e o nosso dia a dia parece acompanhado de uma banda sonora.
Não podemos negar que a paixão nos torna em seres melhores, faz-nos sorrir e encarar o que nos rodeia de forma mais positiva, segundo algumas pessoas até faz bem à pele, pois o corpo produz mais endorfinas, sem esquecer as oxitocinas e vasopressinas.
Mas esquecendo todas estas reacções físicas e químicas, e pegando um pouco na linguística, a palavra paixão deriva do termo grego «pathos» que por sua vez significa agonia permanente. Será que aquela sensação das borboletas no estômago é apenas um sinal enviado pelo nosso inconsciente de que algo vai correr mal? Terá a paixão saído da caixa de Pandora?
A paixão dura no máximo dois anos, se for correspondida. E depois? Ou surge o amor, ou acaba tudo. E aparece um outro problema: a solidão.
Estamos novamente por nossa conta. Mas na nossa cultura e sociedade há uma quase regra que nos diz para procurarmos novamente uma possível cara-metade, alguém que nos complete, porque estar sozinho é quase patético.
Mas será que vale a pena tanta exposição, tanta entrega se no final estamos sempre por nossa conta? Será que vale a pena andar em busca da nossa outra parte?

4.4.06

A Quinta

Entrei no sótão e tentei adaptar os olhos à falta de luz que lá havia. A iluminação era estabelecida unicamente pelos raios de sol quente que teimavam em entrar pelas telhas sujas e velhas do casarão. Lá dentro cheirava a passado. Cheirava a coisas esquecidas.
Olhei em volta a tentar identificar o que por lá havia. Apenas velhos baús, caixas e bugigangas dos tempos em que a quinta ainda era habitada.
Lá em baixo conseguia ouvir o meu irmão a falar com o mediador imobiliário que viera para avaliar a quinta. Depois da morte dos meus avós não fazia sentido ficar com ela. Nenhum de nós queria morar neste fim de mundo, e deixar a quinta ao abandono não era uma boa opção.
Caminhei em direcção a uma pilha de livros poeirentos, decidira guardar apenas algumas coisas, aquelas que nos trouxessem recordações mais fortes, as que tivessem mais significado.
Não tinha muitas recordações daquele sítio. Estivera ali apenas duas ou três vezes, quando ainda era pequena. E as coisas que eu mais recordo, como os animais e o burburinho de fundo tão característico, já não existem. Foco novamente a minha atenção nos livros, sacudindo o pó para ler os títulos. Dois livros de culinária, um de matemática, dois de contos infantis e um álbum de fotografias.
Tento encontrar um feixe de luz e sento-me por baixo dele. Olho a capa do álbum em couro envelhecido pelo tempo. Abro-o e é como se viajasse ao passado. Fotografias de gente que não conheci, amarelecidas e sarapintadas. Pequenas e recortadas. As folhas cheiram a mofo, um cheiro abafado e quente. Encontro o meu pai ainda criança, os meus tios que nunca mais revi, os meus avós ainda cheios de vida, os imensos criados que morreram de velhice, eu e o meu irmão pequenos a montar a cavalo, o último Natal que vivi aqui…
Começo a pensar em como seria bom se pudesse rever os meus avós, e como seria bom se os tivesse visitado mais vezes e conhecido melhor.
Começo a pensar e a ficar triste. Como ficariam também tristes os meus avós se vissem como isto ficou, como o desinteresse modifica as coisas.
Levanto-me num repente para sair do sótão e descer até ao salão. Não vou permitir que o passado seja esquecido. A quinta não vai morrer com os avós.
Estou decidida. Vou fazê-la renascer, e assim talvez fortificar laços com quem viveu aqui também.
Corro pelas divisões a abrir todas as janelas e a deixar entrar a luz e energia. Esta energia que gera vida. E sei que não é uma loucura, que vou conseguir. Porque sei que nos piores momentos, naqueles em que parecer que não há força para ripostar, vou ter alguém a olhar por mim e a certificar-se de que tudo acaba bem.

17.3.06

Desistencialistas

Mais cedo ou mais tarde ignoramos, ou desistimos daquilo que não conseguimos compreender.
Como quando tentamos incessantemente construir um daqueles puzzles de mil e não sei quantas peças, que deixam a nossa cabeça dividida em igual número de partes, e depois, irritados com a nossa falta de apetência, metemos tudo na caixa e guardamos no fundo do armário longe de qualquer possível segunda tentativa frustrada.
Mas, como em tudo na vida, há especialistas. Pessoas especialistas em desistências. Passam a vida a perseguir metas e a desistir antes do fim. E o pior é que isto se torna de tal maneira lema de vida, filosofia, ou sei lá… talvez seja mais uma fobia, que passam a desistir das pessoas.
Desistir das pessoas tem muito que se lhe diga, pois não se pode meter alguém dentro de uma caixa e atirá-la para o fundo do armário. Por incrível que pareça há técnicas. Técnicas que variam desde a subtil necessidade de isolamento, até a uma das mais difíceis de concretizar que consiste em deixar alguém plantado no meio da rua, virando-lhe as costas e prosseguindo como se nada fosse.
Estas pessoas não são cruéis, nem têm nenhum tipo de carências afectivas que lhes desenvolveu algum espécime de trauma emocional. Nada disso. São apenas seres pensantes com um nível de entediamento muito elevado que acaba por se manifestar na forma como conduzem a vida e as suas relações interpessoais.
Contudo, não é de todo um fenómeno social, nem são necessários estudos para chegar a uma conclusão lógica e plausível sem ser fundamental recorrer a amostras e experiências. É simples. Na maioria dos casos estes indivíduos serão vítimas da sua própria especialidade em desistências.
O entediamento é contagioso, e ninguém quer passar pela dificuldade que é sobreviver à companhia intermitente de um desistencialista. Por isso desistem primeiro que desistam deles.
Não há nada humanamente possível que se possa fazer por estas pessoas. Tentemos apenas não ser como elas, aplicando-nos em concluir o que começamos.
Estes desistencialistas são pessoas iguais a todas as outras. A única diferença é que estão cheios de armários e baús a abarrotar de tralha, que de vez em quando gostam de remexer para constatar que nunca irão mudar.

16.3.06


Um dia um homem sonhou, e mudou para sempre o mundo...

15.3.06

Old New York


Os dias sucedem-se numa marcha infinita de luz e escuridão.
E eu olho:
Pessoas que passam vezes seguidas, e outras uma única vez.
As cores que aparecem e se esgotam, e os cheiros que gostaria de guardar.
Esta cidade é assim: uma mistura policromática de tudo, podia até descrevê-la como um grande catálogo de todas as coisas que podemos ver no mundo.
Há anos que vivo aqui, atrás deste balcão de uma livraria antiga que o meu pai me deixou. Cresci a ver livros, a conhecê-los a respeitá-los. Sei de tudo um pouco.
E vejo sempre as pessoas através desta grande janela. Passam a correr para um lado ou para o outro. Por vezes não sei se têm mesmo pressa de chegar a algum lado, ou se apenas têm o hábito de andarem assim. O que elas não sabem é que vão passar pela vida demasiado depressa. Sem erguerem pelo menos uma vez a cabeça, e olharem o céu que se prolonga além dos grandes edifícios.
Do que eu mais gosto aqui é do Outono. Quando a cidade respira de alivio dos concertos e festivais do Verão. E tudo acalma e volta à rotina.
Gosto de andar pela 5ª Avenida em direcção ao Central Park. E ficar por lá nos fins de tarde, a ver as árvores que se pintam das cores da terra.
E é no Inverno que a correria se intensifica: pessoas mais apressadas ainda, com grandes sacos de presentes; outras que chegam de várias partes do mundo para sentir e ver o espírito Natalício que se salienta com as luzes e com a neve.
E neste enorme formigueiro de gente e culturas, haverá sempre lugar para mais um concretizar o sonho americano.
E eu estarei sempre aqui, atrás deste velho balcão rodeado de estantes de carvalho. A ver as pessoas que passam. O sangue da cidade nas suas imensas artérias.

11.3.06

Alma de Nómada

8 : 15
Toca o despertador, inoportuno! E era suposto estares aqui. Sentada no teu lado da cama, enrolada numa toalha com o cabelo a cheirar a champô.
Era suposto, mas não estás. Em vez disso encontro um lado da cama frio e arrumado.
Sempre acreditei que connosco era para sempre, que irias ficar comigo até ao dia D, em que o corpo sucumbe e a alma ascende. Mas não.
O que parecia perfeito e me fazia sentir o tipo mais sortudo à face da terra desapareceu, desintegrou-se...
Ainda não consigo entender o que se passa dentro da tua cabeça: como consegues desprender-te das pessoas em três tempos, com que facilidade pegas nas tuas coisas e anuncias na mesma hora a tua partida.
Não consigo perceber também a simples e incompleta explicação com que me deixaste: que és uma pessoa singular, uma unidade e que não aceitas bem relações.
Chegas a essa conclusão um ano depois de partilharmos os mesmos espaços, a mesma vista sobre o Mar e os mesmos lençóis!
O pior é que eu não te consigo imaginar a vagabundear, perdida em ti mesma para sempre. Mais cedo ou mais tarde vais precisar de parar, chorar. E vais encontrar alguém que te ache graça, como eu achei, e que se apaixone por ti como aconteceu comigo. E vais ficar com ele uns tempos, a lamber as feridas e a sarar o espírito.
E vais passar a vida inteira nisto. Vais passar a vida inteira a pedir boleia a almas solitárias, cheias de vontade que o teu corpo lhes preencha os espaços deixados em branco. Até o dia em que decides partir novamente, deixando para trás corações em pedaços e olhos que já não conseguem chorar.
Por favor pára um minuto e pensa. Só um minuto para reflectir, porque bastaria um gesto para eu abrir de novo a porta e deixar-te ficar nesta casa que é grande demais sem ti.

2.3.06

A Viagem...



Olho o meu retrato, e olho-me ao espelho. Não sou eu.

Tenho vontade de pegar num cinzel e esculpir de novo aquilo que eu fui.
O maior inimigo de alguém é o tempo,
principalmente quando se crava na alma
.
O quarto à minha volta está frio e parece cada vez mais negro.
Estou gelado, por dentro e por fora…
A janela abre-se num repente e o vento outonal espalha os papéis pelo chão da divisão.
Um livro antigo cai e abre-se. E lá está a fotografia.
A velha fotografia. Velha…
E eu grito, agarro-a e rasgo-a em mil pedaços. Fantasma.
O chão. Range.
E a dor. Álgica e minha. De sempre.
Chega e fica. Perpetua-se.
Horas.
O sal secou.
E eu sequei.
Já falta pouco. Para a viagem.

15.2.06

Ponto Final

Sempre consegui descodificar intenções e emoções. Às vezes não acontece à primeira, mas acontece sempre. Chama-lhe intuição, sexto sentido… o que quiseres.
Só sei que é verdade e que nunca me engano.
Por isso, o teu discurso elaborado do último dia não surtiu o efeito desejado. Não posso acreditar numa única palavra que saiu a flutuar da tua boca quando os teus olhos diziam exactamente o contrário.
Só ainda não consegui compreender porque insistes em partir quando a tua vontade é ficar.
Sei que o tempo começa a escassear e que mais cedo ou mais tarde vai chegar o dia do ponto final.
Quero que saibas que na vida não existe a tecla delete, e que tudo o que fazes e dizes fica gravado a tinta permanente. Não se pode voltar atrás.
Por isso pensa bem. Pensa duas vezes.
Se vais fazer estritamente o contrário daquilo que queres, fá-lo de uma vez. Não precisas de explicar. Não se pode explicar aquilo que nem nós próprios compreendemos.
E eu prefiro ficar dias a ressacar a tristeza do que anos com cara de ponto de interrogação. Prefiro varrer os pedaços de ti que deixaste pela casa, do que passar as noites a tentar juntá-los de novo.
Há muito que aprendi que existem tarefas inglórias logo à partida e pedir-te muito que fiques é uma delas.
Então decide rápido. Vai depressa porque quero desligar-me de ti. Não posso manter ligações com alguém que prefere abdicar do que lutar.
Preciso de ficar sozinho, pois é na solidão que as pessoas renascem.
Não posso ficar à espera que o vento leve sozinho as cinzas que deixaste. Vou pegar nelas e atira-las janela fora. As cinzas e tudo o que era teu e deixaste cá dentro.
Acho que já me preparei para rasgar os laços e aceitar o inevitável dia do ponto final.

6.2.06

A Praia


A mesma praia de sempre. Onde tudo acontece. Mais uma vez, deixei-me cair nas suas redes. Naquele lugar há sempre qualquer coisa à minha espera.
O Mar estava como todos os dias: bravo e imenso. O Sol estava prestes a baixar. O vento frio e rasgante, como de todas as vezes que lá fui.
Até que ela chegou. Impassível. Como se o Mar a trouxesse. Vinda do nada, e sem motivo. Apenas tinha chegado.
Sentou-se no areal, um pouco mais à minha frente. Pernas estendidas e alma elevada.
Desenhava rotas imaginárias na linha do horizonte. E eu sabia-a já minha. Como quem conhece o que é seu por direito.
Vestida de branco e pele morena. Os cabelos tinham mais ondas que o Oceano inteiro.
Ergui-me em segundos e caminhei até ela. Sentei-me ao seu lado e respirei fundo, tentando absorver algo a seu respeito.
Por momentos, dois olhos verdes fitaram-me, sorrindo.
O vento soprou mais forte e eu senti o cheiro dos seus cabelos. Um cheiro doce, quase flores, quase canela.
O Sol tinha desaparecido quase por completo, só uma linha vermelha esfumada permanecia, ao longe.
Ela suspirou profundamente, e eu soube que viajava no passado. Talvez naquela mesma praia…
Queria saber o nome dela, mas não me atrevia a pronunciar uma sequer palavra, com medo que aquele momento mágico se quebrasse.
Mas, de repente, tocou-me. Pegou na minha mão e entrelaçou-a na sua. E à minha frente vi a sua vida acontecer: vi cidades e pessoas, vi lágrimas e vi sorrisos. Viajei na sua alma e conheci-a por completo.
Sei agora dos seus medos, das suas fragilidades, das suas alegrias e dos seus sonhos.
Deitei-me no areal a observar as estrelas que acabavam de aparecer. Ela a meu lado, ainda não tinha largado a minha mão.
Acordei momentos depois, arrepiado por um vento mais forte. Dela nem sinal.
Olhei a minha volta e nada. Era como se nunca estivesse cá estado.
Se calhar foi um sonho… Só sei que lá volto, todos os fins de tarde. À mesma praia de sempre.

29.1.06

Qualquer coisa que ficou...

"(...) Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.

E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente,
Qualquer coisa que ficou que é da nossa eternidade. (...)"

João Gil

7.1.06

Três dias


Se eu te disser que tens apenas três dias…
Três dias para me resgatares de volta.
Para voltares a cruzar caminhos.
Para abrir pela última vez uma porta.

Se eu te disser que espero, mas apenas três dias.

Será que condicionas a tua vida?
Será que traças o mapa de forma diferente?
Por apenas três dias.

Será que vais contar o tempo?
Ou deixar a vida girar?
Tens um plano, um projecto?
Ou apenas um esboço mal feito?

O relógio não pára.
O tempo escapa-se.
Agarra-o.

Ou abre os dedos e deixa-o fugir.

3.1.06

De ti


Há perguntas que eu não te faço porque não sei se estou preparada para ouvir a resposta.
Mas há gestos em ti que me prendem, palavras que me imobilizam.
Já vivemos tantas coisas juntos que poderíamos dizer que já nos conhecemos completamente. Sabemos, à partida como cada um reagirá perante qualquer situação.
O que pode ser um pouco assustador, pois o facto de nos conhecermos na totalidade não nos deixa nada por descobrir. Mas é ao mesmo tempo reconfortante, porque podemos antever a queda um do outro e lançar um gesto para a proteger, amparar e sobretudo suavizar a dor.
Ao longo da nossa vida fomos atribuindo e definindo espaços dentro de nós a pessoas, lugares, momentos… O teu é especial. Carregar-te em mim não exige nenhum esforço, não é martirizante. É até um sentimento agradável. Dá-me a sensação que te tenho sempre perto de mim.
Temos a característica de eufemizar acontecimentos e situações.
E depois há o hábito que criamos um do outro. Como quando chego a casa depois de um dia extenuante e me despes, me beijas e me adormeces. Ou quando vens angustiado, porque uma vida não resistiu e te fugiu das mãos, e eu fico a teu lado em silêncio. Porque as palavras só são necessárias quando há algo a definir.
Tenho a certeza que mesmo que não fiquemos juntos para sempre, vou gostar sempre de ti. E das sensações que me dás quando estás comigo. Pois gosto de ti como és. Com todas as tuas fraquezas e defeitos. Gosto de ti porque és humano e não uma figura idealizada. Gosto de ti porque és o único que me vê como realmente sou e gostas disso.

1.1.06

Perda


Morreu! Ainda não consegui assimilar essa informação mas é verdade.
Ainda não consigo acreditar, nem tão pouco perdoar!
Alem de se matar matou tudo de bom que havia na minha vida. Num momento de loucura, deixou-se vencer pela clareza súbita da vida que nos prende ao mundo por um fio muito fino e frágil… e abandonou-me. Deixou-me no perplexo da incerteza entre o ser e o não ser. E agora estou sozinha num mundo construído para dois. E que só faz sentido se estivermos juntos.
Não sei o que vou fazer daqui para a frente. É tudo indecifrável, como um nevoeiro cerrado. Não sei que passos dar para alcançar o cume da estabilidade e voltar ao que sempre fui.
Nunca pensei que perder alguém fosse isto. Perder totalmente o rumo a seguir e ficar sem referências. Tudo deixa de fazer sentido e o que me acompanha é o nada e vazio nos quais flutuo.
Preciso de ti! Quem te mandou abandonar-me? Quem te fez senhor de decidir que eu funciono sem ti?
Se pudesse voltar dizia-te que somos um só. Que tudo nos pertence. E que a soma total dos nossos corpos é a verdadeira resposta para tudo.
Mas já cá nãos estás. Deveria ter-te dito isto há mais tempo.
Mas temos que aprender a aceitar os acontecimentos e encará-los como desafios à nossa sobrevivência mental. E foi preciso tu partires para eu aprender isso.
As pessoas de quem gostamos são-nos tiradas muito depressa. Por isso devemos deixá-las sempre com palavras de amor, pois pode ser sempre a última vez que as vemos.
Estás longe, num sítio onde já não te posso alcançar. Mas deixo-te aqui o meu amor.
Encontrámo-nos um dia…quem sabe… no céu.

Nádia Soares e Rafaela Oliveira