17.12.07

M e m o r i e s

São nestes momentos sozinhos que me aquieto e te relembro.

A tua voz pausada, inundada de mansidão.

As mãos quais novelos de afectos.

Os chás tardios com uma manta e uma confissão no colo.

O meu olhar sereno encaracolando no teu cabelo.

Apesar dos anos que passaram ainda sinto o teu cheiro a fruta nas minhas almofadas, ou se calhar eu é que ainda o tenho naquele cantinho misterioso da memória…

12.12.07

Desassossego

Há agora um desassossego em mim que já não consigo calar.
Foi ontem que despertou por entre as folhas espalhadas pelo chão e a roupa desalinhada.
Chegou de mansinho, quase nem dei por ele. Só hoje de manhã reparei na sua presença. Olhei para o relógio em tom de cerimónia para marcar o momento: sete e dezasseis da manhã.
Estava atrasada, mas não me importei. Fumei um cigarro preguiçoso, só para celebrar.
E o som do chuveiro, o elevador intermitente, e o rosnar do carro que todos os dias são os mesmos – repetidos e monótonos – pareceram hoje pequenos tinidos de vozinhas ameninadas.
Às vezes fico assim, presa numa visão policromática e exagerada do que me rodeia. E o azedume colectivo não me inquieta, só me apetece é quebra-lo num abraço fortuito.
Mas o dia vai passar num movimento circular e hesitante de agulhas. E a noite… Essa é de festa. Porque sei que quando regressares a casa vou ser recebida com fogo de artifício.

11.12.07

Tempo

Já passou o tempo do desencontro. Agora que a chuva secou e eu tenho o meu olhar no teu.
Agora que o gosto se apazigua mas o perfume ainda paira no ar, voltei a plantar na minha mão a mesma ousadia libertina que faz a voz secreta voar.
(Foto de Geoffroy Demarquet)

27.11.07

S. João

Há qualquer coisa de inenarrável no olhar que ele me devolve.
Entra-me pelos olhos e atravessa-me a nuca como um sopro cálido de um dia de praia.
Arrepia-me. Transporta o meu corpo para um festejo, para um estado de euforia típico de noite de S. João.
E mesmo depois, quando a alma se tranquiliza e o dia nasce, o olhar ainda lá está arguto, sagaz, dizendo com os olhos o que a boca quer fazer.





(Foto de Luís Mendonça)

23.11.07

Lonely celebration

Faz hoje mais um aniversário que vendi o meu coração a retalhos.
Jazem algures em colchas perdidas que quando sozinhas, gemem baixinho…

21.11.07

Lust

Even as he thinks, the lust that is no more
Than a memory of lust revives and takes
His senses by the hand, his felt flesh wakes,
And all becomes again what 'twas before.
The dead body on the bed starts up and lives
And comes to lie with him, close, closer, and
A creeping love-wise and invisible hand
At every body-entrance to his lust
Whispers caresses which flit off yet just
Remain enough to bleed his last nerve's strand,
O sweet and cruel Parthian fugitives?

So he half rises, looking on his lover,
That now can love nothing but what none know.
Vaguely, half-seeing what he doth behold,
He runs his cold lips all the body over.
And so ice-senseless are his lips that, lo!,
He scarce tastes death from the dead body's cold,
But it seems both are dead or living both
And love is still the presence and the mover.
Then his lips cease on the other lips' cold sloth.
Fernando Pessoa

13.11.07

Para bom entendedor...

Escuro; Chão; Lareira; Música:

6.11.07

As palavras

Às vezes sinto tudo o que é meu em silêncio. E pareço perdida com a ausência de palavras.Por isso procuro-as avidamente em todos os cantos. Com os olhos, a boca, as mãos...



Ouço-as e repito-as para as dissecar.
Abro livros ao acaso à procura de respostas aleatórias.



Não gosto de abecedários. Não gosto da ordem metodológica de catalogar a língua que falo.




Segredo;
Euforia;
Caos;
Martírio;
Frio;
Amor;
Noite;
Provocação…


Enchem-me a boca como pingos de um beijo.
E todo o meu corpo se acalma, quente, como se se enchesse de nicotina.

3.11.07

Estrela da tarde


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
Ary dos Santos

29.10.07

Dias assim...




Há dias assim. Dias que queremos ser mais.
E hoje quis ser mais, e melhor. Queria que tivesses orgulho na pessoa que sou.
Queria que me visses para além do que sou. Que me olhasses nos olhos e visses a minha história acontecer como quem lê um livro.
Queria que fossemos mais. Queria que tivéssemos um entendimento maior. Quase telepático
Queria que sentisses o meu olhar fixo no teu pescoço enquanto dormes desse lado da cama.
Preciso de mais. Não consigo ser só a que te acompanha, a que te dá a mão e às vezes o corpo. Não posso ser só a que te ouve. Preciso de ser ouvida também, e mais do que isso entendida.
Já passou o nosso tempo. Já não sentimos quem somos. Já não vejo em ti o brilho cósmico do universo. Caiu o pano e a expectativa não compensa a surpresa.
A música que ouvia sempre que estava contigo deixou de tocar. A cor apagou-se. Apagamo-nos.
Chegou o dia que prevíamos. O dia que não queríamos, mas que estava a chegar.
Chegou o dia. Há dias assim. Foi hoje. E o mundo não vai ruir.
Vamos sorrir e lembrarmo-nos do que fomos. E que fomos muito, que já não somos mais.

26.10.07

Carta aberta ao meu amor antigo

Tenho andado a pensar em nós. E sabes? Chego sempre à mesma conclusão: que não foi perfeito, mas não poderia ter sido de outra maneira.
Nem sempre o que dissemos foi o mais correcto, nem sempre fomos adultos o suficiente para saber que só nos estávamos a magoar um ao outro. Nem sempre mostramos o que sentíamos. E deixamos que coisas secundárias como o orgulho ou a raiva se impusessem ao que tínhamos.
Nunca falei contigo tão abertamente, por culpa minha, eu sei. Estou a aprender agora a mostrar o que vai cá dentro, sem medo. Estou a aprender a confiar. Eu confiava em ti, nunca duvides, mas não tinha a capacidade de confiar o que vai cá dentro a ninguém.
Não quero agora relembrar mágoas antigas, mas também não me contavas o que se passava contigo, vivíamos vidas diferentes que nunca se manifestavam quando estávamos juntos. Nunca partilhamos alegrias, tristezas, desilusões… E foi isso que corrompeu com o que tudo o resto que era nosso.
Já não temos idade para mal entendidos. Temos que nos olhar de frente e trocar as armas por palavras, ainda que estas firam mais que as primeiras.
Não vamos mais atirar culpas que vão e vêm e nunca chegam a lado nenhum. Não vamos reacender a raiva que nos atirou para mundos diferentes.
Vamos tentar olhar um para o outro com a mesma ternura da primeira vez, sem gritos, sem apontar o dedo. Vamos cicatrizar as feridas que nos aplicámos, e começar de novo. Porque descobri que sem ti não valeu a pena.
Vivo sem ti, não sou patético para te dizer que não. Mas se for contigo será, com certeza, muito melhor.

24.10.07

Porto

Hoje foi um dia bom. Um dia de chuva que acabou bem.
Um dia dedicado a mim.
Vagueei pelo Porto, esta cidade que me é tudo, como não fazia há mais de um ano.
Uma tarde dedicada à preguiça e a descobrir sítios novos em sítios antigos.
Uma casa velha e medonha que encerra um jardim encantado com pós de incenso e tilintares mágicos de vários objectos. Um chá secular que me despertou sentidos novos entre o paladar, o tacto e o olfacto. A arte de transformar em liquido qualquer sabor, qualquer coisa; o mesmo que Grenouille fazia com os cheiros.
Um jardim aconchegante onde não existe sentido de propriedade, um jardim onde somos visitados por gatos curiosos que vêm ver quem está desta vez naquele sitio que é de todos.
Saí de lá com os sentidos bem abertos. Apetecia-me absorver tudo à minha volta. Apetecia-me que aquele céu azul não acabasse.
Desci aquele pedaço de rua até a um jardim ainda maior, aquela enorme varanda sobre o rio.
Deitei-me na relva. Senti o cheiro da relva. E fiquei por lá entre confissões e gargalhadas. Fiquei com fragmentos dessa relva na roupa e no cabelo e senti-me bem.
Vi o Sol a pôr-se para além daquela ponte branca e apeteceu-me sorrir.
Estava frio e só me apetecia sorrir.
Mergulhei por entre as pessoas. Caminhei nas mesmas ruas que caminho há anos e vi tudo como pela primeira vez: aquelas paredes velhas e quentes, aquele granito secular, os telhados gastos pelo tempo, as janelas intemporais…
Cheguei à baixa e tudo estava como sempre: um burburinho típico de pardais atarefados e apressados, um corre-corre de formigueiro. E apeteceu-me sorrir.
O cheiro das castanhas assadas e os cartuchos inventados de listas telefónicas. As pessoas de sempre, os pregões de sempre.
Hoje passei o dia pelas ruas do Porto e nunca me senti tão em casa.

23.10.07

Outono que fomos

Foi só uma noite.

Mas fomos tanto nessa noite.

Fomos tempo indiferente. Fomos luz e segredo. Fomos gargalhadas e pranto. Fomos sangue que ferveu, fomos mais que o que somos.
Roubamos as palavras. Abrimos portas proibidas. Fomos horas a mais que a noite tem.
Fomos poetas de rua, malabaristas de olhares.
Travamos o rio que flutuou para além da razão.
Fomos inimigos e lutamos na mesma guerra de sorrisos.
Dançamos.
Dançamos sem vontade de quebrar a quietude da alma que se encontrou de novo.

Fomos só uma tarde.

Uma tarde de Outono que resgatou o SOL.
FOMOS tanto nessa tarde. Fomos mais que a soma que conseguimos.
Fomos fogo profundo no espaço. Fomos homens e crianças.
Aprisionamos o medo e fugimos. Navegamos o mar que ainda não existe.
Fomos mãos. Fomos pele e saliva.
Corrente sanguínea.
Fomos água e evaporamos.
Caímos de novo e inundamos a terra. Diluvianos, apocalípticos.
Fomos um número ímpar, quando juntos éramos apenas dois.
Cartas que rasgadas faziam mais sentido.
Fomos imagens cinematográficas e fomos verdade.
Fomos verdade.
FOMOS SOL.

Fomos só uma hora.
Mas fomos mais nessa hora que qualquer um num século.
E fomos tanto…

16.10.07

A Pedra

António Lobo Antunes prometeu, um dia, amar uma pedra.

Não sei se será boa ideia. Já o fiz, há algum tempo atrás. Já amei uma pedra. Penso eu… Se não era uma pedra, era algo parecido: sem vida, sem expressão, sem movimento. Um rochedo secular que não cedia à erosão.
As mãos eram frias, graníticas. O toque pelo qual ansiava concretizava-se áspero, desconfortável. A pele de calcário não chamava por mim.
E no entanto, eu amava-a. E como eu amava aquela pedra.
A pedra que tinha nome. Um nome que eu esqueci. Porque o passado é assim. Escrevemo-lo em papel de arroz que guardamos na memória. E esta por sua vez altera-o, enfeita-o, ou apaga-o.
Tinha planos para a minha pedra. Daqueles que projectamos na nossa cabeça, uma e outra vez até estarmos confiantes. Ia esculpi-la. Ia pegar num cinzel de palavras e transforma-la numa obra-prima.
A minha pedra…. Que nunca foi minha.
A minha pedra que era feia, tosca, vulgar… E onde eu via topázios, rubis e esmeraldas.

14.9.07

O Rio

E ela está ali parada na margem do rio.
A noite já não a assusta e o frio deixou de o sentir há algumas horas atrás.
O corpo está molhado, a pele está a perder a cor.
As lágrimas ainda não pararam apesar da apatia visível de todos os sentidos.
O conforto. Há muito que o conforto deixou de ser uma prioridade. Dentro dela só há feridas, chagas… Uma dor permanente e asfixiante.
As mãos e os pés estão sujos e ensanguentados pelo longo caminho que percorreu e pelos obstáculos que escalou.
O seu físico e a sua alma uniram-se e afiguraram-se num só: débil, doente, ferido.
O rio está a subir, cobre-lhe o tronco com uma cordial indiferença mútua.
A chuva recomeçou, limpando-lhe o rosto numa preparação fúnebre.
Está submersa. Ela e a escuridão são uma só.
A concretização de algo que se avizinhava.

Tudo aconteceu calmamente, como num sussurro.

E o rio continua, nada o pára.

18.8.07

Marionetas

Tudo começou com um grito na casa vazia.
Daqueles que fazem eco cá dentro, onde não há nada…
O grito que acordou a quietude secular.

Há muito que tudo parecia o lado errado de algo que não existe. Até chegar o declínio tardio da esperança. A paz prolongada fez hibernar o curso natural das coisas que se prorrogam.

Fez-nos cair…

O cinzento abateu-se sobre a vida como um nevão inesperado. O mundo cá dentro parou. O tic-tac do relógio abrandou e ficou no embalar doentio de algo que está a expirar.

E o mundo girava…

As marionetas em que nos tornamos prostradas no chão, envoltas nos fios que não as endireitavam em mãos alheias. A cor da porcelana esbateu-se, assim como o as cores do que víamos.

Ainda lá estamos à espera do cheiro do palco.
À espera que a cortina se abra…

19.7.07

A despedida

Esta noite fiquei com um sentimento entalado cá dentro. Como não gosto de magoar as pessoas, deixo que ele se auto-destrua ainda cá dentro, o que acaba por destruir um pouquinho de mim também.
O culpado foste tu. Sim, tu! Com essa mania que tens de seguir sozinho o teu caminho esqueces-te que naquele dia de Sol apanhei boleia do teu coração. Tens sempre a certeza absoluta não confirmada que eu não sinto a tua falta porque nunca me habituaste à tua presença. Como te enganas… Desde aquela manhã que te encontrei pensativo na praia, de cigarro aceso e sorriso apagado, guardo-te cá dentro com uma vontade insensata de te proteger. Falámos dos nossos projectos, das nossas vontades de conquistar o horizonte. Caminhámos lado a lado no areal molhado, já varrido pelo Vento do Norte. Passámos o Verão juntos, percorremos o nosso trilho ao volante do tempo efémero que partilhámos, rasgando o asfalto quente. A despedida foi triste para mim, para ti… apenas vazia de qualquer sentimento. Dissemos adeus naquela mesma praia, ao mesmo tempo que os pescadores se despediam do Mar, já cansados, enrolando as redes molhadas, ausentes de peixe.
A tua pele cheirava a sal, e os teus olhos verdes queimavam os meus com o silêncio previsto dos dias que se seguiam.

21.6.07

Pequenas Coisas

As pequenas coisas têm sempre importância. Os gestos, as palavras, os olhares…
Essas pequenas coisas que se transformam cá dentro em algo grande, com o tempo.
Hoje apercebi-me que passamos a vida a tentar iludir a alma com histórias que não são nossas, nem feitas para nós. Passamos o nosso tempo a contar lenga-lengas, tão irreais que o nosso coração quase acredita. E nestas histórias falsas não nos encontramos, perdemo-nos. Seguimos direcções diferentes. Largamos as mãos e não nos procuramos.
Agora que percorri o caminho e me apercebi que não é aqui que quero estar, preciso de ajuda para voltar atrás e encontrar-te de novo. Mas não consigo.
Não há ninguém que me indique por onde ir, não há ninguém que me mostre direcções. Ninguém me diz “é por ali.”.
E eu ando aqui às voltas com a vida, parando nos semicírculos, para respirar e tentar ver o que está no horizonte.
Estou quase a desistir, tenho frio e quero ir para casa. Tenho saudades dum abraço sentido, que não chega de onde quero.
"Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou."

16.6.07

Luz Falsa


E se fossemos falar de coisas sérias?
Dos teus segredos mais bem guardados.
Das fragilidades que teimas em esconder.
Da tua perfeita imperfeita perfeição.

E agora que estamos a falar de coisas sérias…
Se contasses como roubas opiniões?
Se mostrasses a todos o que trazes na bagagem?
Ou a bagagem que trazes dentro de ti.

Vais mostrar? Os baús cheios de farrapos.
Cheios de sonhos vendidos ao desbarato.
Cheios de bugigangas e futilidades coloridas.
Cheios de ti, em cada pedaço.

Não queres mostrar?

Não baixes o olhar, nem mordas os lábios.
Porque esse arrependimento ensaiado ao espelho já não resulta.
Deixou de surtir efeito, depois da overdose de gestos falsos.

Não balances as pernas, que não és a menina que querias ser.
Já não brilhas. És baça como uma parede de cimento.
E surpreendente. E imprevisível.

E eu que te conheço. Que te li por dentro como mais ninguém.
Trago-te cá dentro como algo raro e valioso.
Eu que te vejo sem truques, nem ilusionismos.



16.5.07

O meu sul

Não sei se é vingança, se é não sei porquê, mas é muito feio o que andas a fazer comigo.
Pegas nas minhas fragilidades e apertas ao máximo os meus medos até os deixar numa pasta homogénea que pisas com um força de leão.
Entreguei-te todo o percurso de uma vida e todos os segredos que guardava numa bandeja de prata e tu atira-los do alto dum prédio em modos de propaganda festiva.
Não se faz isso com quem se ama, muito menos com quem nos ama. E se te amo… Projectei em ti todo o idealismo guardado de tempos de infância, quando para nós os vinte anos são algo distante e inimaginável. Mas o meu futuro passou por ti.
E tu passaste pela minha vida como um furacão deixando tudo do avesso e fora do sítio.
A culpa foi minha, eu sei. Confiei em ti desde o primeiro minuto porque me sentia segura contigo, mas acho que o meu sexto sentido bloqueia quando estou ao pé de ti, e a agulha da minha bússola se orienta pelo sul.
É assim que me sinto sempre que te vejo chegar, não sei porque razão és algo de tão especial e ao mesmo tempo tão nocivo para mim.
Eu sei de tudo isto, já mentalizei isto vezes sem conta, passei a limpo todas estas ideias a letras garrafais para ver se entendia melhor.
Mas é sempre assim, tu chegas e estendes-me a mão e eu vou contigo. Porque embora tenha um coro de vozes inventadas a gritarem “não vás por aí”, seguirte-ei sempre.

24.4.07

Dom Quixote



Para quem ainda vê dragões em vez de moinhos de vento...

19.3.07

Confidência...



Não me olhes dessa maneira que me dá vontade de te agarrar pela nuca e de te morder esses lábios pretensiosos de semideus.
Não me olhes do alto do teu pedestal comprado a sorrisos que matam, porque eu me sinto despida por esses olhos verdes que não são deste mundo.
Há tanta coisa que nos separa para além destas duas filas de secretárias, que a nossa vida daria uma volta vertiginosa se descobrissem que quando passas lá em casa o chão treme e as paredes gritam.
O nosso mundo é confidencial, e o dia só nasce para nós quando o sol se põe.
Sei que a tua vida se tornaria difícil se soubessem que os teus dedos conhecem com precisão geográfica cada centímetro da minha pele e cada curva do meu corpo, mas é este perigo eminente, este medo borbulhante que cada vez mais nos faz andar às escondidas como duas crianças para comerem o que tiraram do pote das bolachas.
Não me tortures mais, nem me provoques porque sabes que o teu olhar me queima e que a tua voz rouca e bem colocada me estremece qualquer coisa cá dentro que faz com que os meus joelhos cedam e que a minha visão se turve.
E tu sabes o efeito que tens em mim, e mesmo assim gostas de me ver sofrer e morder os lábios para aguentar a vontade de atirar com a cadeira e de agarrar aqui mesmo.
Mas sabes que eu me controlo e só consegues aguçar a minha vontade. Pois sabes que aqui eu me comporto e que as coisas só se alteram quando a porta se fecha e os nossos corpos se juntam numa massa quente e indefinida.
Mas o que tu não sabes é que eu estou completamente viciada em ti, e que passo os dias a contar os segundos até te ter de novo comigo longe de tudo e de todos. Não sabes que já não consigo viver sem ter o teu corpo na minha cama e sem ouvir a tua respiração acelerada voltar ao normal. Não sabes que me sinto menos eu quando vais embora e que adormeço a sorver o teu cheiro nas minhas mãos, só para te sentir mais perto outra vez.
Não sabes que estou aqui só por ti e por mais nada, só mesmo para te ver e chamar-te. Mesmo que seja por Sr. Professor.

22.1.07

Film Noir

Finalmente percebi a frase “ A curiosidade matou o gato.”. Não o matou literalmente, matou de angústia e tristeza porque descobriu o que não queria. Foi como eu.
Eu tenho a mania das surpresas. É estúpido e incoerente, mas tenho. Sou uma romântica.
Planejo as coisas na minha cabeça como um assalto ao banco, com minúcia e precisão. E para além de planejar todos os passos também profetizo mentalmente o que me vão dizer para mais uma vez ter roteiros de resposta. Numa linguagem mais banal e corriqueira isto chama-se “fazer filmes”. E é isso mesmo: Filmes e filmes, bobines complexas de um film noir qualquer, patético enfim…
A noite estava tão fria que eu só podia ter desconfiado que algo não iria correr bem.
Mas eu tinha que ter ido com isto para a frente, como sempre.
Saíste, e eu media os minutos para que tudo fosse perfeito. Eu a e a minha organização cronológica não podíamos falhar.
Agarrei nas coisas e saí uma hora depois de ti, como tinha decidido. Daria tempo de te envolveres no teu trabalho e nem te lembrares do que tinha ficado para trás, ou seja, eu.
Cheguei ao edifício, com o nervoso miudinho, não de medo mas de expectativa. E eram tantas as que eu tinha….
As coisas não andavam bem eu sei, tu não estavas presente o tempo suficiente para que os nossos laços tivessem ficado mais fortes, e eu não fazia nada para que ficasses mais tempo. Por isso a surpresa. Para veres que penso em ti mais do que aquelas duas horas diárias que passas lá em casa, e mais do que os sábados à noite quando não estás amarrado ao trabalho.
E subi as escadas do átrio a correr, porque queria chegar depressa até ti. Continuei a subir porque não conseguia esperar pelo elevador vagaroso e hesitante de andar em andar.
Subi quatro lances de escada sem que a minha respiração se acelerasse, e vi finalmente a porta onde te encontravas semi aberta, e a luz acesa. Não havia ninguém naquele andar, tinha confirmado os turnos, só tu lá estavas a tratar de um caso que era inadiável e urgente.
Cheguei-me perto e abri a porta cuidadosamente, não queria uma entrada triunfal, queria chegar calma e contida ao pé de ti, o que era suposto ser triunfal viria depois…
E foi aí que tu me surpreendeste a mim, a expert em surpresas.
Foi aí que o meu coração caiu ao chão e se fez em mil, quando te vi, em vez de amarrado ao trabalho, amarrado a outra qualquer. E nem deste pela minha presença até que estúpida e ironicamente a rolha da garrafa de Champagne Billecart – Salmon, que eu trazia, ter saltado ruidosamente devido à correria, e o conteúdo ter regado o escritório, como num baptismo. Sim, foi um baptismo do fim da minha cegueira.
Olharam-me como quem olha para um acidente de viação: com admiração, horror e pena.
Desci a escadas de vagar, agarrando o corrimão com força e raiva. Raiva de mim.
Hibernei durante três dias ignorando tudo: telefone, campainha, o ladrar do Xavier…
Mas renasci para a vida com um novo impulso. E sabes, meu amor, como eu sou perfeccionista nestas coisas. Ando aos poucos a planear a minha vingança, que vai ser tão exemplar que o teu queixo vai cair. Surprise, surprise!!!
Ando a tratar de tudo com uma calma abismal, ando a limpar as minhas armas. E quando o tiro te acertar em cheio vai saber-me tão bem…
Vai ser a concretização e o desfeche perfeito do nosso próprio film noir.

21.1.07

More than Perfect

Since the beginning I knew that you were special. I thought that you were funny, whit your “kid who doesn’t want to grow up” attitude inside a fully grown man body. And it was your Peter Pan complex and my old obsession with maturity that approached us. I thought that you never took anything serious and you thought that I took things too seriously.
Everything happened to quickly, and even if we wanted couldn’t be other way.
I discovered, and I discover each day, something new and astounding about you. I discovered that you are capable not only to take me serious but to take yourself serious.
And that was the beginning of the most perfect relationship that I had and that I will ever have in my life.
It was a surprise to identify your other side: cautious, protector, sweet, kind…
I love this that we have, this that is only ours and that I’m sure, and I know you are too, that is perfect.
The way o look at me, the way you take care of me, that you embrace me when I sleep, the way you love me, how you hold up to me... everything is in the exact manner to be more than perfect.
You were one of the only persons that could understand the meaning of my long silences, and realize the moments when the best thing you could do for me was to walk away. And you always knew the best manner to come back, in silence, without questions…
Because you know that after all things that can happen, I am here for you with open arms, and you are always and forever welcome in my life.
And after all this, after all this that you signify to me, after all you did whit and for me, all this peace and serenity that you bring into my life, after all this…. Explain to me how can I risk all this, how can I be falling in love with someone else.
Please try to explain this to me, because I can’t understand. Explain and help me, because what is happening is something I don’t want, but for more that I try there are things stronger than myself.

5.1.07

Cavalo de Tróia

Eu pensei que fosses feita de outra matéria. De outra matéria que não este barro sujo, mundano, vulgar...
Quando olhei para ti a primeira vez parecias-me transparente, brilhante, e de uma leveza subtil capaz de parar o tempo e os pensamentos mais absurdos.
E foi por isso que te segui. Porque me davas a promessa de uma visão diferente, uma visão diferente de todas estas coisas tão supérfulas e um conhecimento mais verdadeiro desta matéria de que somos feitos, de que tu és feita e de tudo o que nos rodeia.
E desde esse dia ficaste na minha cabeça tal e qual um Cavalo de Tróia, silencioso, contido, espectante... Até eu baixar as defesas e então, invadiste tudo o que eu era, destruindo, calcando até restarem só ruinas.
Mas, minha querida, eu tenho uma novidade para ti: eu sou mais forte. E agora que já me passou a raiva e a vontade de te agarrar pelos pulsos e de te abanar até desmoronares e te transformares numa formiguinha prestes a ser pisada mais por hábito do que por vontade, tu já não passas de uma gargalhada. És só uma imagem enevoada, uma recordação difusa... E a certeza de que o coração também se engana.