29.12.05

Tristesse


Imprudent. Dans ça vie de fous.
Je t’ai vu. Seulement comme un autre.
Un dom humain. Sans magie. Sans folie.
Une mélange de vie et morte.
Déambulait dans la rue. Aveugle.
Tes mains crues, tes lèvres froides.
La peau déserte de étoiles, un peu gris, un peu blanche.
Tes pieds incandescents, imparables.
Tes mots de silence, je les écoute toujours.
Je t’ai vu. Je t’ai perdu.
Le rêve qui n’est pas éprouvé disparaît dans un souffle.
Jamais le passé. Parfois la mémoire.
Toujours ta face brisée dans le sol, dans mille éléments.

27.12.05

A minha vida dança na ponta dos teus dedos

O que eu mais gosto é de poder saborear as tuas palavras. Palavras com sentido e profundidade. Quase uma melodia silenciosa e ilógica. Como quem sente a face a queimar e não se move, como quem morde a língua e aprecia a dor.
Palavras que ficam, que se aprisionam e me invadem, constantemente.
Seja no papel, habilmente desenhado, ou através dos teus lábios esculpidos e perfeitamente delineados. O que eu quero é sabê-las e senti-las. Hoje ou amanhã.
Fechar os olhos e viajar a teu comando, seguir o rumo que queres. Viajar no tempo e espaço.
Ao sabor da tua vontade.
Ser esta e aquela. Acabar vivendo ou morrendo. Ser tua e de ninguém. Tu decides. Tu escreves. A minha vida dança na ponta dos teus dedos.
A história é tua. As palavras tu escolhes. O meu destino também.

26.12.05

"Esclavos", Diego Manuel

21.12.05

Palavras que Morrem


Quanto vale uma imagem no tempo que não se adianta? Que morreu para sempre...
Vamos parar o relógio e ficar suspensos, neste fio de prata que não quebra. Ou quebra, no último dia.
Vamos criar tempestades, vamos subir tornados, criar marmotos na pele, e chuva nas mãos.
Vamos quebrar vidros de silêncio que se prendem ao corpo. Vamos desamarrar os barcos da mágoa e navegar à deriva...
Vamos extinguir fogueiras de terror, queimar rios de incerteza.
Saberemos para sempre com o que contar. Eu de ti, tu de mim.
Tenho os olhos a gritar por ti.A pele a secar pelo sal.
Já não? Já não vens...
O asfalto já não queima nos dias de Verão. A areia não se molha quando o mar lhe toca.
Eu já não leio as almas que me chegam. É tudo previsível.
As letras quando se juntam já não formam palavras. Só se juntam pelo hábito de estarem juntas.
Porque as letras nasceram para formar palavras. As palavras para construirem frases. E as frases para morrerem na boca dos Homens que as consomem sem pensar.
As paredes já estão a fechar. E eu no centro da sala à espera do que não sou.

19.12.05

Não fui.

Há coisas que me ultrapassam, e neste mundo são muitas. Não controlo muitas forças que me dominam, involuntariamente.
Não decidi que os rios morrem no mar. Não decidi que o dia acaba com o pôr de sol.
Não decidi que nos iríamos cruzar por coincidência, nem que ficaríamos ou não aliados por truques de alquimia, que não controlo.
Nunca ordenei à distância que se medisse em palavras e não em quilómetros.
Só sei que todos nós podemos fazer às pessoas como se faz com uma folha de papel quando a história não coincide.

10.12.05

A Menina Magia e o Rapaz Saudade

Caminhava sozinho, assobiando uma música que não conhecia, quando a vi. Acenando às coisas com o corpo. Dançava a dança do mundo. Rodava sobre si própria, apoiada na ponta do pé, fazendo-se bailarina.
Caminhei até à esquina e encostei-me. Escondido para ver melhor. Braços cruzados sobre o peito, com medo que o coração me fugisse de tão depressa que batia.
Dançava, mais e mais. Sorrindo e rindo. Tinha uma luz imensa à sua volta que a tornavam ainda mais branca.
As pedras da rua fumegavam sob os seu pés descalços. Os seus braços elevados conduziam as mãos num espectáculo de pele e movimento. Ondulavam, ditando os movimentos do restante corpo.
Os cabelos numa cascata negra, pendiam-lhe sobre as costas. As roupas molhadas pela chuva tornavam-lhe as formas mais definidas.
Até que, sem parar, me olhou. Me fitou, como se soubesse que já lá estava há muito.
Caminhou até mim felinamente. Desafiando-me.
Tocou-me no peito, a constactar se ainda vivia. Deu uma volta sobre o meu corpo e parou diante dos meus olhos. Cegando-me com os dela.
Não sei quanto tempo ficámos assim: se dias, meses, anos...
De repente soltou-se de si mesma numa beijo. Que me feriu, queimou... Implodiu num corpo de espelhos, e depois... O nada. Nunca mais a encontrei.
Dela só sei Magia. De mim só sei Saudade.

9.12.05

Fúnebre

Chove. Como nunca choveu.
Toda a gente chora menos eu. Estupidamente.
Olho em volta à procura de um olhar familiar, um olhar desesperado. Ninguém.
Pela primeira vez sinto-me por minha conta, frágil. Um peão sozinho neste imenso tabuleiro de xadrez.
O caixão já está quase coberto. Já passou a despedida. Agora só nos resta o tempo para que o habito da ausência se crie.
Como é estúpido o ser humano: tão susceptível à mudança, só de hábitos é feliz. Não sei se é condição ou cobardia.
Toda a gente me abraça tentando demonstrar compaixão e disponibilidade.
- Vão à merda, abutres! - grito em surdina do alto da alma.
Ninguém se importa, eu sei. Só a aparência conta.
Estou um nojo, as noites nem me salvam. Afogado em cigarros e Vodka. Olheiras e má disposição é tudo o que tenho.
Que eu morra ou viva, já não me importa.
Vou desaparecer. Vendo tudo e desapareço. Já nada me prende nesta terra.
Vou para França, ou Itália, não sei. Talvez Espanha onde falam muito alto, que eu já não me suporto ouvir.

2.12.05

Eu tenho um amigo poeta

Eu tenho um amigo poeta
Que mora na minha cabeça.
É pessoa pequena e discreta
Que vive para que a vida aconteça.

Tem os olhos cor de cidreira.
E a pele cor de avelã.
Dança ao crepitar da lareira.
E é mais feliz pela manhã.

Ai! O meu amigo poeta
Tem uma sorte que eu não tenho:
Tanto pode voar num cometa,
Como ir ao outro lado do espelho.

Fala de amor com o vento,
E escreve cartas à Lua.
Se quiser viaja no tempo.
Quando quer dorme na rua.

Estando triste deita-se no mar,
Sorrindo o Sol aparece.
Não tem voz e sabe cantar,
E se chora depressa anoitece.

Deixa-me galopar contigo,
Num cavalo feito de quimera.
Não te demores, poeta amigo,
Que já não tarda a Primavera.

Leva-me nas tuas aventuras.
Amigo poeta, estende-me a mão.
Não tenho medo nenhum de loucuras.
Medo, só tenho da solidão.

26.11.05

Sonhos....

"Há quem viva das recordações. Há quem viva a sonhar e há quem sonhe em viver.
Atendendo à ordem de insatisfação a que a vida sempre obedece, se sonhar, vou certamente sonhar em viver e se viver, vou viver a sonhar."


Mila Horta, O Cemitério dos Sonhos

23.11.05

E se eu disser que te amo?



Deixa-me ver também
O que vês desse lado.
Deixa-me entrar em ti
e ver atravês dos teus olhos.
Ou então, conta-me tu.
O que sentes quando te toco?
E quando te beijo, aqui e aqui.
Como fica tudo depois do arrepio?
O que significa a tua mão na minha?
O que se manifesta debaixo da pele?
O que pensas quando o perfume desaparece?
Se um dia eu não ficar, vais saber chorar?
O que sonhas quando olhas o céu?
E que visões tens quando os olhos se fecham?
Quando as luzes se apagam e o toque é mais quente,
de que cor se pinta a tua alma?
E se eu disser que te amo?
Como fica a tua vida?

14.11.05

Da Paz, do Amor e do Ódio


As cartas rasgadas em cima da cama
Mostravam aquilo que a alma escondia
O luto nos olhos de quem não sabia
Que o amor não mede a dor de quem ama

A incerteza das palavras que não foram ditas
E por isso mataram o que nunca viveu
O sonho desfeito nas mãos interditas
Que tocam e ferem tudo o que é teu


O coração acalmava agora
Depois da luta interna parada.
Os batimentos fraquejavam e por fora
Só o ódio assassino ainda restava.


A paz havia sido corrompida
Já nada se media em função da felicidade
Só restava o silêncio…e a vida…
Essa acabaria em fatalidade

31.10.05

Forever and a day

- Ouve! Vamos ficar para sempre juntos?
- Prometo.
- Para sempre?
- Para sempre e mais um dia, como na música dos Scorpions.
- Não me vais falhar?
- Nunca.
E ficamos assim… juntos. Porque tudo o resto é isso mesmo, resto. Restos que não nos pertencem.
Costumas pegar nas minhas mãos e aquecê-las dentro das tuas. E o mais importante é que me aqueces também a alma e afugentas todos os fantasmas de vidas anteriores.
Resgataste-me, felizmente, de uma certeza que vivia comigo há anos. A certeza de que a solidão me iria acompanhar para o resto dos meus dias como uma sombra, que permanece mesmo quando tudo fica escuro.
Já não te consigo deixar ir. Se um dia fores embora vais levar metade de mim e deixar-me num estado catatónico e vegetativo.
Estou completamente viciada em ti. Nos teus olhos, nos teus lábios, no teu perfume de nada que já existe, na tua pele e em tudo mais que é teu. E um vício é pior que uma doença. Porque não há vacinas ou antibiótico que possam ser directamente administrados no cérebro ou no coração, dependendo do ponto de vista, e libertar-nos dessas correntes.
Por isso fica comigo. Porque desde que chegaste à minha vida tornei-me numa pessoa melhor. Mais forte, corajosa, e sem traumas ou paranóias. Fazes-me bem.
Por isso fica comigo. Forever and a day.

28.10.05

Palavras a preto e branco...




Olá, meu amor. Não sei onde estou.
É estranho este sítio a preto e branco.
Não tem ninguém. Só cinzas de imagens.
Não tem manhãs, nem noites.
O tempo desfragmenta-se e flutua.
Às vezes para o futuro.
Outras vezes para o passado.


Meu amor, consegues resgatar-me?
Leva-me outra vez para junto de ti.
Onde há calor e frio.
Aqui não se sente nada. Nem dor.
Já não me lembro o que é a dor.
Mas sei que não gosto de estar aqui.

Meu amor, consegues ouvir-me?
Ouves os meus gritos?
Eu aqui não oiço nada.
Mas falha-me a voz de chamar por ti.

Estou deitada num carvalho de cimento
Que me assombra todos os dias...


Meu amor, sabes onde estou?
Parece o lado errado de um filme.
Não há vida aqui.
Nem eu sei se vivo.

Sei apenas que vives em mim.
Ou será apenas a tua memória?
Meu amor... Será que me ouves?
Estende-me a mão.
Tira-me desta realidade.
Ou desta irrealidade.
Se pelo menos aqui estivesses...

Meu amor, será que és meu?
Ou feito de um sonho?
Meu sonho... Meu amor.

26.10.05

A Dança da Lua


Sabes a vida de cor
Não te prendes à virtude
Amas o que te traz dor
Ganhas com o teu suor
A calma das noites quentes
Em que dormes com quietude

Sabes a Dança da Lua
De desejo ondulante
Extingues o fogo interno
Como se fosse o teu inferno
De uma pele bronzeada e nua
Viciante, aliciante

Com os teus lábios cortantes
Rasgas o silêncio matinal
Com a destreza animal
Que rompe os segredos gritantes
Do meu puro vício carnal

Trazes em ti a marca profunda
De um truque primordial
De um feitiço ancestral
De luz, silêncio e morte
Que ditou a tua sorte
De carne quente imunda
De prazer libertino e banal

24.10.05

Amigo

"Martim,
Eu sei que sempre fomos os melhores amigos, e que sempre contámos tudo um ao outro, e foi isso que nos manteve unidos mesmo depois de acabarmos.
Como tua melhor amiga acho que tenho o dever de te dizer a verdade, não de te consolar com uma mentira simpática só para te proteger.
A Rita não é a minha pessoa preferida. Tu sabes disso. Quando andávamos na mesma escola ela fazia de tudo para me humilhar e me fazer sentir deslocada. Nunca me tratou bem. Por isso a opinião que tenho dela não é das melhores.
Não te vou dizer que o teu namoro com ela é um erro, não tenho esse direito. És maior de idade, sabes tomar as tuas decisões e aceitar as suas consequências.
Quero que sejas feliz, seja qual for a pessoa que escolhas para ficar contigo, seja qual for o teu caminho.
Serei sempre tua amiga e podes contar comigo para tudo: para um conselho, uma opinião, ou uma reprimenda."

21.10.05

Cavaleiro Andante








Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz
Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau
Carlos Tê

18.10.05

Seremos todos descamponeses

Na revista Lua Nova, número 4, página 20, de Mia Couto: GOVERNADO PELOS MORTOS
(fala com um descamponês)"...
- Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmo se
tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só para poderem pedir a alguém.
- E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos retirados?
- Foram. Nós só ficamos com o descampado.
- E agora ?
- Agora somos descamponeses.
- E bichos, ainda há aqui bichos ?
- Agora, aqui, só há inorganismos. Só mais lá, no mato, é que ainda abundam.
- Nós ainda ontem vimos flamingos...
- Esses se inflamam no crespúculo: são os inflamingos.
- E outras aves da região. Pode falar delas ?
- Antes de haver deserto, a avestruz pousava em árvore, voava de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, há nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o título de beija-pássaros. ..."

3.10.05

O inutil

Já passei da idade de sonhar.Não sei ser feliz por mais que tente. Sou um homem frio e velho como o Inverno. Tive mulheres, mas não tive amor. Tive dinheiro, mas não comprei a satisfação. Tive três filhos, nenhum como eu, felizmente.
Quando era pequeno não brincava com ninguém. Fechava-me em casa com tudo o que tinha e queria ter. Formava um mundo só meu, onde era omnipotente e omnipresente. Fazia o que queria e não era obrigado. Cresci sozinho, no meio de mordomos e sopeiras.
Estudei sozinho com professores particulares. Casei, mas não amei nem fui amado.
E agora que estou a morrer gostava de ser outra vez pequeno. Cair e esfolar os joelhos. Construir carrinhos de rolamentos. Sujar-me nas poças de lama nos dias de Inverno.
Ser pintor. Apaixonar-me. Viver.
Agora que estou a morrer aprendi a ser diferente. “A minha vida foi inútil.” Escrevam isto na minha lápide.

10.9.05

Uma pegada no cimento!

Tudo em ti é tão fresco e doce que só contigo é que estou feliz. Apetece-me saborear-te com tempo, sem pressas e planos. Os momentos contigo não são perdidos, são investidos.
Aprendo contigo a ser uma pessoa melhor, mais calma e tolerante.
Adoro a forma como me olhas com olhos de ver, me estudas e me lês como um livro que te fascina. Folheias cada página sem pressa e com cuidado, absorvendo cada palavra.
Não sei porque é que te encontrei e fiquei logo contigo gravado em mim, para sempre, como fica uma pegada no cimento. Marcaste-me de tal forma, que a tua permanência me toca de toda as feições possíveis e imaginárias.
A primeira vez que os meus olhos tropeçaram em ti foi naquele bar de praia onde cantavas com a alma que se reproduzia na tua voz rouca e afinada. Os teus dedos percorriam as cordas da guitarra como quem dedilhava o corpo de uma mulher que deseja. Os olhos fechados viam mais longe que qualquer um dos outros que se fixaram em ti. Soube desde aí que só podias ser meu.
E hoje que aqui estás ao meu lado, e dormes serenamente, percebi que te amo e te quero. Que sem ti eu estou em falta.
Encaixamos na perfeição, como duas metades da mesma concha. E já não me habituo a não te ter, a não ter o teu cheiro a fruta nos meus lençóis, aos post-its no frigorífico, às mensagens no espelho depois do banho…
Não deixes que o tempo apague da memória a nossa história, nem que os teus olhos verdes deixem de olhar na mesma direcção que os meus. E como dizia a Pam tu és o Pedro da minha vida. Para sempre e sem restrições.

26.8.05

Just are...

All men are ordinary men, the extrordinary men are those who know it.

24.8.05

The dark side of my soul.

I change the way I saw my life, the way I saw myself... Just because of the pain that you made me feel in the exact moment you walked away on the bridge, on the oposite side where I set my soul... Thank you for the vision, for the lesson that you made me learn.
Some day you will see me in a diferent way, but it will be too late. Too late for change the road that your life has taken.
Until then take the pieces of my sadness, they only belong to you... The dark side of my soul.

2.8.05

Girassóis e Bolas de Sabão

Como não posso sair da cama, as únicas escapadelas que posso dar até ao mundo lá fora são pela janela aqui ao mau lado ou pela televisão que está por cima da porta do quarto.
Mas cada uma mostra-me um mundo diferente. E o mundo que eu gosto mais é o da janela.
Na televisão mostram-me terras onde só há pó e morte, pessoas que se odeiam, meninos que passam fome… Eu não gosto de ver isso.
Gosto do mundo da janela. Vejo um jardim onde passam muitas pessoas, tem baloiços onde os meninos tentam cada vez subir mais alto e às vezes sustenho a respiração porque quase parece que eles vão passar das nuvens! E no escorrega, apesar de não poder lá ir já aprendi o truque: quando se está a chegar ao fim estica-se muito bem as pernas e depois dá-se um saltinho, senão caímos de rabo na areia.
E pelo jardim ao Domingo há gente a fazer ginástica, rapazes a jogar futebol, e pessoas que fazem piqueniques! Eu gostava de poder fazer um também.
A minha mãe diz que eu vou ficar bom, mas eu sei que não é verdade. Às vezes ela pensa que eu estou a dormir e chora muito, e isso não pode ser bom.
Ao princípio eu ainda me levantava e ia até á sala dos brinquedos e de vez em quando apareciam palhaços. Mas agora estou cada vez mais fraco e não posso. Já estou aqui há quase um ano, mas ainda não encontraram ninguém com uma medula que me sirva, como me disse a médica. Mas se encontrarem eu fico bom.
Antes também tinha um rapaz da minha idade no meu quarto, era o Joel. Mas ele ficou bom depressa e foi-se embora.
Agora só me resta esperar. Enquanto isso vou dando uma escapadela com os olhos até ao jardim. De manhã os girassóis estão todos alinhadinhos e virados para mim, parecem os soldados, todos em fila. E noutro dia tinha a janela aberta e apareceram no meu quarto muitas bolas de sabão…
Ás vezes gostava de ser uma bola de sabão para voar pela janela e passear a flutuar pelo jardim…

31.7.05

Deus e Diabo

"Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém
Todos tiveram pai, Todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do Amor que há
Entre Deus e o Diabo."
José Régio

28.7.05

Luz e Noite


Desobedeci aos Deuses
No dia em que te conheci.
Desafiei o destino implacável
Na hora fria e triste,
Em que bebi dos teus olhos
A lágrima amarga e doentia,
Carente, quente e sombria
Da tristeza que de ti não desiste.

Vagueei nas montanhas geladas,
Vazias de tudo o que há.
Alcancei o pico da loucura.
Caminhei, chorei, caí.
Forcei o caminho em riste.
Queria resgatar-te da loucura
De não ter quem assista
Á beleza serena e pura,
Que emerge de tudo o que é teu
E se refugia e espelha no céu,
E que ilumina a noite escura
Quando o mundo é pintado de breu.

5.7.05

Por que te quero?

Não sei o que mais me chamou a atenção quando te conheci. Não sei se foi a tua forma de ver a vida com graça que fez com que cada vez que te via sorrir o meu peito se enchia de cor que transparecia pelos meus olhos, como se em vez de íris me tivessem lá posto dois caleidoscópios.
Não sei se foi esse teu cheiro a mar que sai de cada poro teu que me devolveu a vontade de mergulhar de cabeça na ondulação do teu corpo, sem medo de ficar presa numa corrente mais traiçoeira.
Esses teu olhos cor de nada que já existe, tão cheios de tesouros por descobrir, queimam os meus a cada lance, a cada olhar que se cruza e não se deixa tocar.
A tua voz rouca que roçava o meu ouvido nas noites quentes de Verão, essa mesma voz que não sai da minha cabeça e me incendeia a carne, parece repetir-se quando o vento sopra mais forte.
A tua pele cor de areia molhada que me tocava até à exaustão, que me consumia a alma e me deixava ofegante de tudo o que era teu.
Continua a não perceber se foi esse teu “Está tudo bem.” que era dito no momento necessário, que me despertou cá dentro a vontade de ficar contigo até ao dia que as estrelas se apagariam para sempre.
Deve ser dessa luz imensa que te sai do corpo directamente para os meus olhos, só pode ser. Só pode ser por seres sempre tu que me agarras na mão quando a minha alma parece sucumbir.
Não sei o que seja, nem porquê. Só sei que te quero. Em mim, dentro de mim.

29.6.05

Solidão

O homem solitário é uma besta ou um deus.
(Aristóteles)

27.6.05

Contos

Não posso ser só eu a dar sentido à razão
Vais ter que vir tu arrancar-me a escuridão
É que às vezes quem vence fica sempre a perder
Vamos deixar de usar armas no que queremos ser
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais contos de embalar
Não podes ser tu a dar sentido ao buraco
Se não te queres lembrar do que sentiste no fundo
Agora tens que vir tu saciar-me os segredos
Porque é fácil demais o que me queres vender
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais contos de embalar
Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Vais ter que despir o que tenho a mais
Por ver sempre tudo a desconstruir
Por cima da raiz que nunca sai
Que volta a crescer por não parar
Que volta a crescer por ser maior
Que volta a crescer sem avisar
Sem mais contos de embalar
TORANJA , SEGUNDO
Obrigada, Tiago... pelas palavras.

22.6.05

Na Terra de Todas as Cores

Na terra de todas as cores
Lá longe, depois da China
Vivia o Mago das Flores
Com o cão e uma menina

No poço da sua aldeia
Trazia antes de anoitecer
O branco e o amarelo
Para pintar o Malmequer.

O Lírio e a Violeta
Criava-os de todas as cores
E misturava na sua pipeta
Toda a perfeição dos amores.

O cão felpudo brincava
À sombra de um castanheiro
E via crescer a cada dia
As flores lá no canteiro.


O trabalho da menina
Naquela terra de mil cores
Era regar com muito amor
O solo de todas as flores.

Quando a Primavera chegava
Todas as ruas ficavam em festa
E toda a aldeia se decorava
De rosas, tulipas… até giesta.

O Mago de barbas cândidas
Trabalhava noite e dia
E a menina regava, regava,
Tudo aquilo que ele fazia.

Um dia muito cansado
O Mago teve um susto.
Viu que por erro tinha criado
Um grande vermelho arbusto.

E agora o que faria?
Um arbusto não é vermelho!
Não o podia voltar a pintar,
Tinha de ir pedir um conselho.

Subiu à montanha mais alta
Quase, quase a tocar nos céus,
E numa suplica muito aflita
Pediu para falar com Deus.

O Senhor estava ocupado,
Mas mesmo assim atendeu
O Mago tão desesperado
Que sempre Lhe obedeceu.

“Meu Deus deste-me um dom,
mas falhei no meu dever .
O que vou fazer com o arbusto?
Será que tenho de o esconder?

Deus respondeu ao Mago
Do alto da sua sabedoria
Que mesmo o arbusto vermelho
Era belo porque vivia.

“ Se eu te tivesse feito verde
com os olhos de todas as cores
Serias o mesmo homem Mago
Que tanto ama as suas flores.”

O Mago agradeceu contente
Os conselhos do Senhor Criador
E desceu a montanha correndo
Pois descobriu o verdadeiro amor.

Amava da mesma maneira
Todas as suas flores da colecção.
Também amava o arbusto vermelho
Que nasceu por incorrecção.

No primeiro dia da festa
O Mago estava nervoso.
Não sabia o que diria
O Povo tão zeloso.

Não sabia o que iriam pensar
Dos mais arbustos que criou:
O vermelho, um azul e um magenta.
Criticariam aquilo que o Mago inventa?

O Povo chegou mesmo à hora certa.
Olhou as flores sempre muito belas.
Coçou a cabeça, e ficou de boca aberta!
Estavam na festa muitas heras amarelas!

E arbustos de cores estranhas!
Estaria o Mago louco?
As rosas não eram castanhas!
E os arbustos tão pouco!
“Senhor Mago - disse alguém
Esta festa não está igual
Àquelas que a gente vem!
O Senhor comeu algo que lhe fez mal?

Na ponta, uma mulher
Dizia de sua razão
“Eu não acho nada bem
que o senhor faça esta confusão.”

O Mago esperou então,
Que o povo se acalmasse.
Ninguém parecia interessado
Que o Senhor Mago falasse.

As pessoas falavam, gritavam,
Faziam gestos de incompreensão.
Mas ninguém deixava realmente
O Mago dar a sua opinião.

Até que o Mago se fartou
De ver tanta agitação
E do alto da sua voz
Começou a declaração:

“Senhor Povo, por favor
Ouça o que eu tenho para dizer
Criei estas plantas com tanto amor
Acha que elas não devem viver?

Que mal tem se o arbusto
Que sempre verde nasceu,
Nasceu depois de um susto
Tão negro como o breu?

Se os vossos filhos amados
Nascessem de forma diferente
Iriam deixá-los, abandonados
Sozinhos, longe da gente?”

Então o povo acalmou
E pensou, pensou, pensou.
Olhou novamente os arbustos,
Até que um sorriso se formou.

Viram que a obra do Mago
Tinha sido feita com ternura
E que mesmo a flor do jasmim
Tem o mesmo cheiro sem a sua alvura.
Viram rosas verde esmeralda,
E tulipas cor de caramelo,
Viram margaridas prateadas,
E um orgulhoso cacto amarelo.

O Mago estava feliz.
E recebeu no final da festa
Muitos elogios, aplausos.
E depois foi dormir a sesta.

Deitou a sua cabeça branca,
No macio da almofada.
Sonhou que estava a voar alto
Acompanhado por uma fada.

A fada muito pequena
Tinha o cheiro do alecrim
E pediu ao Mago das Flores
Que lhe criasse um jardim.

O Mago criou então,
Um jardim bem colorido.
Depois voltou para casa
Com a ideia num Pomar garrido.

Ainda hoje se conta
Na terra de todas as cores
Que o Mago ainda lá anda
A colorir as suas flores.

E que a menina canta baixinho
Uma linda canção de embalar
Para adormecer todas as flores
Que acaba de regar.

O cão felpudo e traquina
Que gosta de brincar
Rebolana relva macia
Que acabou de rebentar.

Lá longe depois da China,
Na Terra de Todas as cores
Mora um cão e uma menina
Com o Mago das Flores.
Para a Nicole, para o Giovanni e para a Juliana.

15.6.05

Até Sempre... Para Sempre

São cinco da tarde de um dia chuvoso e triste.
Chego a casa depois de um dia igual a tantos outros.
Abro a porta, atiro a pasta para o chão e dirijo-me à cozinha.
Um corpo inerte reside no chão de mármore, afogado numa poça de sangue.
Helena suicidou-se. Os pulsos vermelhos de carne e sangue não mentem.
Uma carta descansa na fruteira, acamada numa banana.
Toco no corpo. Está frio e rijo. Provavelmente está morta há horas.
Na minha típica atitude estupidamente racional marco o número das emergências.
Pego na carta, desdobro-a e leio:

Amigos,

Não sou nada senão mais um fantasma físico que vagueia neste inferno.
Há muito que me perdi neste cemitério de almas e sonhos.
Estou só, estou só no meio de uma multidão.
Não há saída para mim. Aterroriza-me esta claustrofobia inexistente que habita todo o meu corpo.
Tenho a misantropia instalada permanentemente em todos os meus órgãos e quero sair deste sufoco.
Obrigada por terem permitido que eu entrasse nas vossas vidas.
Até Sempre, Helena


Uma lágrima rola pelo meu rosto e desmaia no papel.
Dói-me a garganta de tristeza.
Helena resolveu morrer no mesmo dia em que eu percebi que a amo.
Agora só tenho a sua memória, para sempre…

31.5.05

O Pomar e o Rio

- Nã faças isso Quim, ca tua
irmã é pequenina!
- Oh mãe, deixe tar quela nã se aleija…
E davas ainda
mais lanço no baloiço, até eu suster a respiração. Era como se eu fosse cheia de
ar, como um balão, e flutuasse. Via os meus pés a tocar as nuvens, e deitava a
cabeça para trás para me sentir mais desligada da terra. De repente, paravas o
baloiço e corrias, corrias muito. Eu saltava num segundo e corria, corria…
tentava apanhar-te, mas nunca conseguia. Encontrava-te depois, no pomar, debaixo
de uma árvore a tentar caçar um gafanhoto, ou a comer uma maçã, daquelas
vermelhinhas.
Aos Sábados de manhã íamos ao rio, levavas-me na tua bicicleta,
entre o selim e o guiador. E nunca travavas. Nem mesmo nas descidas. Eu fechava
os olhos, para me abstrair das imagens e ficar apenas pela sensação de a
qualquer momento levantar voo e tocar nas nuvens brancas e fofas que pairavam lá
no céu.
Sentava-me na margem, enquanto fazias os teus malabarismos com a cana
e com as linhas. E quando um peixe inocente mordia o isco e ficava preso no
anzol, chamavas-me a tremer de excitação, para que sentisse a força dele que
nunca era maior que a nossa. Puxávamos o carrinho, rodando, uma e outra vez, até
que ele aparecia, contorcendo-se, lutando pela vida. Tiravas-lhe o anzol da boca
e devolvia-lo ao curso do rio, sorrindo, sorrindo muito, como quem acaba de
salvar uma vida. Nunca sabias os nomes dos peixes, mas não os deixavas regressar
sem inventar um.
- Este é um peixe-prata, vês? Tem as escamas todas
prateadinhas…
E agora que eu cresci, e que os Sábados no rio não acontecem há
muito tempo, recordo-me do que fomos, não com saudade, mas com gosto. É como
quando se abre o álbum das fotografias e de repente as imagens começam a mexer,
ganhando vida e som…
Tenho saudades tuas. Desde que largaste as calças de
ganga velhas, cortadas pelo joelho, e as trocaste pelo fato cinzento que pareces
outra pessoa. Já não tens a velha bicicleta, e nem o vidro do teu carro baixas
para deixar o mundo entrar.
O sotaque que eu adoro, do meu velho Alentejo,
deixaste-o na faculdade, perdido entre ideias que não são tuas e maneiras
infalíveis de vender aquilo que ninguém quer.
É quando me sento aqui em
frente a um ecrã todo branco, com o capitular a piscar insistente, à espera de
uma ideia, que mais penso nos sábados no rio, e das corridas até ao pomar.
O meu
desejo para ti, meu bom irmão, é que num desses serões no sofá, com o portátil
no colo, tentando encontrar a frase perfeita para convencer alguém que o novo
creme de barbear é melhor que outro qualquer, te lembres de como eras e resgates
o rapaz traquina que gostava de dar nomes aos peixes, e que me fazia admirá-lo
por ser tão esperto e conhecedor daquilo que agora
esqueceu.

25.5.05

O nosso mundo

Marcar uma vida como tu marcaste a minha não é fácil. Ou melhor, não acontece com toda a gente. Tanta gente passa por este mundo sem provar metade daquilo que tu me deste a provar.
Ensinaste-me que podemos fazer o que quisermos, sem nos importar com os outros, sem nos importar com o que possam pensar. Isso sim é a verdadeira liberdade.
Contigo sempre pude dizer o que pensava realmente, sem eufemismos, sem pensar se poderia magoar ou ferir sentimentos. Era tão livre a teu lado.
Dizias-me que tudo era nosso: o céu, as estrelas, o mar, o arco-íris que aparecia depois de uma chuva intensa…
Corremos o mundo sem nada nos bolsos, apenas com uma vontade imensa de ver tudo e um amor imbatível pela vida que nos enchia o peito de esperanças.
Nadamos nus no mar mediterrâneo, corremos descalços na Medina de Fès, enfrentámos sem medo as tempestades de areia do Saara, saltamos de terra em terra ao sabor do vento e da nossa vontade: Oujda, Saïda, Skikda, Banzart… Apanhamos boleia num iate com um dono simpático e rumamos a Itália.
Demos as mãos pela última vez naquela praça em Florença, enquanto olhávamos a Lua, cansados do calor do Verão. Deste-me um beijo com sabor a cappucino e olhaste-me com ternura.
Quando acordei já lá não estavas, só a cortina branca esvoaçava.
Já passaram dez Verões… Nunca te procurei. Sei que um dia encontrar-me-ás, e então, voltaremos a percorrer o mundo guiados pelo momento e pela vontade de estarmos juntos.

20.5.05

Desafio

Desafio-te a leres nos meus olhos todas as palavras que não te disse.
Desafio-te a encostares o teu ouvido ao meu peito.
Desafio-te a sentires o que eu senti.
Desafio-te a acreditar.
Desafio-te a chorar.
Desafio-te a gritar.
Desafio-te a escutar.
Desafio-te a olhar.
Desafio-te a colorir a tua vida de novo.
Desafio-te a mergulhar na água gelada do Mar selvagem.
Desafio-te ao Desespero infinito de estar longe.
Desafio-te a partir.
Desafio-te a sofrer.
Desafio-te a viver sem restrições.

19.5.05

A Janela Aberta

Vi-te ali tão despido
De medo, de vida, de sentido.
Com o coração a fugir
Pela janela aberta no teu peito,
Pintado de amarelo garrido.

Teus braços fraquejando
Da pose politicamente correcta.
Um sorriso pintado a sangue, latejando,
Nessa janela no teu peito aberta.

As mãos sujas de pó e suor!
Visível a infâmia da dor
Palpitando nos teus olhos verdes sem cor,
Extintos tal ferida sem ardor.

Louco que eras ontem!
Louca que me tornaste agora!
A razão dos olhos que não mentem,
Que já viveram e morreram outrora.

Nasceste há pouco para o mundo,
Viveste há muito para mim.
Possuíste a vida num segundo,
Agarraste as estrelas na tua mão,
Fugiste, caíste, pairaste no firmamento,
Jogaste o jogo cru e cinzento,
De quem desfiou a criação.

Rasgastes os laços vermelhos
Que uniam o meu peito ao teu.
Tiraste à sorte o teu caminho.
Decidiste seguir sozinho.
Naquele lugar oposto ao céu,
Reflectiste em mil espelhos
A dor profunda que sentia,
Que a vida toda persistia,
Nos meus olhos apagados,
Pelos teus, em tempos, molhados.

12.5.05

No feelings

I´ve seen you in the mirror
When the story began
And I fell in love with you
I love yer mortal sin
Yer brains are locked away
But I love your company
I only leave you when you got no money
I got no emotions for anybody else
You better understand
I´m in love with my self
My beatiful self
A no feelings a no feelings
A no feelings
For anybody else
Hello and goodbye in a run around sue
You follow me around like a pretty pot of glue
I kick you in the head you got nothing to say
Get out of the way ´cos i gotta get away
You never realise
I take the piss out of you
You come up and see me and
I´ll beat you black and blue
Okay I´ll send you away
I got no feelings a no feelings
No feelings for anybody else
Except for my self my beatiful self dear
There aint no moonlight after midnight
I see you stupid people out looking for delight
Well I´m so happy
I´m feeling so fine
I´m watching all the rubbish
You´re wasting my time
I look around your house and
There´s nothing to steal
I kick you in the brains
When you get down to kneel
And pray you pray to your God
No feelings a no feelings
No feelings for anybody else
Except for my self
Your daddy´s gone away
Be back another day
See his picture hanging on your wall
( The Sex Pistols)

9.5.05

Não vou deixar morrer o coração

A pior coisa que podemos fazer é deixar morrer o coração. Foi isso que aconteceu comigo há uns anos atrás, quando ainda não tinha maturidade suficiente para perceber que existem pessoas más, capazes de assassinar o sentimento mais nobre que alguém pode ter.
Andei durante muito tempo com o coração parado, tanto tempo que me esqueci que ele lá estava. Vagueava, guiado apenas pela cabeça que me dizia o que era certo ou errado sem qualquer manifestação sentimental.
Foi na noite em que te encontrei sorridente e inquieta que, subitamente, qualquer coisa começou a funcionar dentro da minha caixa torácica. Eras tão diferente! Tinhas uma luz estranha e mágica que fluía através do teu corpo e me entrava directamente nos olhos, encadeava-me! Nunca mais consegui deixar de olhar para ti.
Cada toque, cada olhar, cada sorriso, cada palavra tua propaga-se cá dentro e vibra como a corda de uma guitarra, arrepiando-me até à alma.
Foste a culpada da ressurreição do meu coração que bate a cada segundo com a força de mil homens, com a energia infinita de mil sois.
És a culpada desta nova vontade de viver que nasceu em mim e me faz lutar a cada dia por ser digno de tudo o que és. Despertaste em mim a necessidade de ser uma pessoa melhor, uma pessoa capaz de amar sem restrições e de se entregar transparente e por inteiro sem medo de cair novamente no espaço vazio da razão obstinada.
Nunca te disse, mas não vou deixar que o tempo corra depressa demais. Vou deixar que me invadas com todo o teu fulgor, com toda a tua vontade de viver cada dia como um último, com toda a carência que tens de abraçar a vida. Vou abandonar de vez a apatia que existia em mim.
Contigo aprendi a dar um passo de cada vez. Não vou voltar a olhar para o mundo apenas com os olhos. Ensinaste a ver com a alma, com o corpo, com a boca, com as mãos…
É sem dúvida a maior lição que se pode ter.

28.4.05

Abandono

E desde aquele dia eu nunca mais te vi. Ficaste para lá do meu alcance. Naquele sítio entre o físico e o intocável onde ninguém está, e tu estás, para mim…
Abandonaste-te de forma voluntária… Ficaste sozinha e pediste para ninguém te procurar, porque a tua opção de vida era ficar perdida.
O que posso fazer senão aceitar? Nada. Tenho que concordar com essa tua ausência que me magoa e que me rói cá dentro.
E é em dias como este, de uma trovoada medonha em que a chuva parece querer rasgar a janela, que eu mais sinto a tua falta.
Era de dias tristes como estes que tu gostavas. E eu agora também gosto deles, são bonitos. Como tu, és bonita por ser diferente.
“A renúncia é a única coisa que nos resta perante uma vontade divina que nos transcende.”, e essa vontade divina roubou-te de mim.
Hoje estive com a nossa história nas mãos. Abri aquele livro de capa negra com letras cinzentas, todo ele de luto, e comecei a ler… Mas a tempestade não deixou que continuasse… Não vale a pena.
Quero ficar tranquilo, mas não te quero esquecer. Mas não posso ter as duas coisas. Então relembro-te.
Não se pode ter liberdade absoluta, e este é o meu destino lançado por um óraculo cruel.
Se tu ainda pudesses voltar, se eu soubesse por onde andas… Resgatava-te. Fazia com que percebesses que a solidão não faz bem. É uma droga, pior que os químicos.
Porque é que tens tanta necessidade de solidão? Não vês que ela nos afasta?
É uma dor brutal não saber nada de ti. Não poder cruzar a minha vida com a tua.
Já te disse que hoje estive com a nossa história nas mãos. Olhei para aquelas palavras, para os papéis soltos dentro do livro de capa negra com letras cinzentas e percebi que não resta nada daquilo que um dia fomos.
Naquele dia em que pedi para falarmos, ia dizer-te que queria continuar contigo, que continuava a gostar de ti, que sem ti a vida era mais difícil e amarga… mas tu não me deixaste falar e acabaste tudo com um adeus frio e distante. E foi assim que te perdi.
Agora não passas de um passado distante. De uma árvore que não cresceu. Da letra de uma música inacabada. Não passas de um caminho perdido no percurso da minha vida.
Às vezes ainda me pergunto onde estás. Apenas para tentar convencer-me que a tua partida e o fim do que nós tínhamos foi o melhor para mim e era o início de uma nova etapa em que a tua ausência se resume a uma história imaginária que aconteceu.
Lembro-me do nosso último momento. É sempre o último momento que se guarda. Nunca serei capaz de digerir a forma cruel como te despediste de mim. Nunca vou perceber essa tua capacidade de abandonar as pessoas que mais gostam de ti. Nunca vou perceber como consegues matar dentro de ti sentimentos e abafar emoções. Deves ter perdido o coração num dia triste e fizeste da tua alma um muro muito alto, intransponível, que ninguém, nem eu que gostei de ti com uma profundidade e entrega total, conseguiu sequer espreitar.
Mas de que me adianta, agora, pensar naquilo que a vida poderia ter sido? A vida é o que é e não há nada a fazer, senão aceitá-la e vivê-la da melhor forma possível.
Continua a chover. Chove sempre que me lembro de ti.
E é quando a trovoada chega e ilumina o quarto, que eu consigo ver pela janela que lá fora tudo continua a rolar, que nada parou, apenas eu.
Agora estou cansado. Quero dormir. Para sempre. Pode ser que te encontre.
Nádia Soares e Rafaela Oliveira

26.4.05

Os teus olhos verdes

Os dois sentados lado a lado. Os dois com os olhos postos no ir e vir repetitivo e infinito das ondas. Era quase noite. O céu pintado de vermelho e laranjas como se Deus se aborrecesse de vê-lo azul.
A praia estava deserta. Nós em silêncio. Para além do ruído das ondas a desmaiar na areia, só se ouvia a nossa respiração ritmada.
A meus pés o caderno de capa preta que sempre trago comigo. Nada lá tinha escrito nessa tarde. Preferia a tua companhia que a companhia das palavras.
Coçavas o queixo com barba de dez dias como fazias sempre que tinhas um pensamento profundo. Sorrias para ti mesmo. O cabelo quase grisalho, mas ainda com os reflexos loiros dava-te um ar vivido mas terno, os olhos verdes, esses jamais envelheceriam.
A voz profunda, grave e rouca não se manifestava há horas.
Deitaste a cabeça no meu colo, num gesto tão familiar, a pedir carinho. Passava-te os dedos ao de leve no rosto, nos cabelos rebeldes, nas rugas vincadas pelo sorriso, nos lábios, nos olhos. Os meus nunca saíram do Mar. Acendeste um cigarro, puxaste languidamente o fumo enquanto semicerravas os olhos, nesse jeito tão teu. Sopraste o fumo em direcção ao céu. Uma brisa com cheiro a maresia batia ao de leve nos meus cabelos castanhos.
Anoiteceu completamente. Levantaste-te, descalçaste-te. Caminhaste em direcção à água em passos lentos. Fizeste um gesto tácito para que te acompanhasse.
Segui-te. Parámos juntos, na exacta fronteira entre a areia e o Mar.
Demos as mãos, os corpos e as almas. Gastámos a pele cansada na sofreguidão do espírito.
E hoje que os teus olhos verdes se fecharam, sei que ainda vagueias, naquela praia esperando que chegue a hora em que te encontre de novo e me devolvas a tranquilidade que me roubaste no dia em que abandonaste a minha alma neste mundo sem o verde dos teus olhos.

24.4.05

Memórias...

Nesta aula em que o tempo não passa eu penso em ti.
Gostei tanto daqueles dez anos em que estiveste aqui comigo…
Gostei de quando brincámos com os martelos nas noites de S. João.
Gostava de quando me punhas entre ti e o guiador da tua mota e andávamos por aí, sem destino ou motivo, só para sentirmos o vento rasgar-nos a pele.
E quando eu ficava a olhar para as tuas tatuagens nos braços e tentava imaginar a dor que aquilo te teria causado!
Quando punhas aqueles filmes antigos da Guerra das Estrelas, e já sabias os diálogos de cor, como eu odiava aqueles filmes!
Lembro-me de quando te zangavas comigo porque me apanhavas a espreitar as prendas de Natal. E depois vestias-te de Pai Natal, e eu descobria logo que eras tu pois via o teu brinco através das barbas de algodão em rama.
Como me senti importante por transportar as alianças no dia do teu casamento!
Lembro-me como gostavas de sentir o teu filho dar pontapés dentro da barriga da tua mulher. Lembro-me também daquele dia em que ela fez as malas enquanto berrava e te acusava de coisas que eu não entendia, naquela altura…
E tantas outras coisas que recordo, umas com um sorriso, outras com os olhos molhados.
Mas o pior de tudo foi aquele dia de Abril em que o telefone tocou, e tu nunca mais voltaste. E eu nunca mais te vi, a não ser dentro da minha cabeça.
Agora quando quero falar contigo olho para o céu. Não gosto de falar com aquela placa de mármore, que te cobriu… num dia triste.
À Memória de José Paulo Soares.

Um lugar para sempre meu...

Um dia, uma pessoa de quem gosto muito disse-me que, por mais independentes que sejamos, numa dada altura, o nosso coração fica preso a duas coisas: uma pessoa e um lugar.
O lugar já o encontrei. Ficarei para sempre com a alma ancorada nesse sítio inundado de boas recordações. Nesse sítio mágico onde o Rio se funde com o Mar. Nesse sítio cheio de histórias que merecem ser contadas. Nessa Foz que será sempre o lugar onde pertence uma parte de mim.
Um lugar onde o ar cheira a sal, onde cada casa permanece intocável desde tempos distantes, e onde cada edifício que nasce estabelece uma ponte entre passado e futuro.
Onde jardins plantados à beira mar florescem a cada ano.
Quantas vezes caminhei naquelas praias? Quantos pensamentos navegam, ainda perdidos, naquelas águas? Quantas conversas com amigos ficaram extintas naqueles areais?
Cada visita que faço àquele lugar tão meu é sempre muito pequena, mas sinto-me sempre bem vinda.
Jamais esquecerei essa Foz, onde ainda desaguam para sempre as minhas lágrimas.

22.4.05

Angel



Angel came down from heaven yesterday
She stayed with me just long enough to rescue me
And she told me a story yesterday,
About the sweet love between the moon and the deep blue sea
And then she spread her wings high over me
She said she´s gonna come back tomorrow
And I said, "Fly on my sweet angel,
Fly on through the sky,
Fly on my sweet angel,
Tomorrow I´m gonna be by your side"
Sure enough this morning came unto me
Silver wings silhouetted against the child´s sunrise
And my angel she said unto me,
"Today is the day for you to rise
Take my hand, you´re gonna be my man,
You´re gonna rise"
And then she took high over yonder
And I said, "Fly on my sweet angel,
Fly on through the sky,
Fly on my sweet angel,
Forever I will be by your side"
(Jimi Hendrix)

20.4.05

My Butterfly

Fly, fly, my Butterfly
My sweet Butterfly
Find your way
Write your destiny
In the blue beautiful sky

Trust in your wings
Trust in my voice
I hope life bring you nice things
I hope you make the good choice

Kiss the wind
With your fired lips
Drink in the darkest cloud
The water that God weeps

Touch the head of the mountains
Painted by the white snow
Wash your eyes in the red fountains
Those who make the life grows

Fly, fly, loved Butterfly
I won’t let you die
My Butterfly

19.4.05

Para o Guilherme, meu amigo.

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado!
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ai! Saudade.
(Luís Represas)


Obrigada pela divisão de lágrimas, pela partilha de sorrisos. Pelos abraços distantes, pelo colo, pelas palavras.

17.4.05

Como o Sol e a Lua

Duas almas distintas, dois caminhos opostos. Um dia cruzaram-se nas ramificações infinitas de um mundo grandioso, que encolheu aos olhos de um homem possessivo.
Existe uma força que nos une, que nos torna aliados sem nunca podermos partilhar o mesmo espaço. Como o Sol e Lua.
Governas o dia, aqueces as almas das pessoas, tens um brilho inconfundível, majestoso, imperial.
Eu gosto da noite, do escuro, do mistério envolvente, sinto-me ligada ao mar e a minha forma de estar varia através de ti. Brilho com o reflexo da tua luz, e nunca ofusco os outros corpos cintilantes que permanecem na tela negra onde me deito.
És o âmago de outras existências que se reúnem à tua volta e te adoram com a força de uma permanência ancestral. Eu vivo camuflada entre os corpos de claridade que me prendem com a força cativa de uma vida de correntes invisíveis.
Comigo trago o vento gélido e o deserto arenoso, branco e vazio.
Não vivo sem ti, paraliso.
Quase nunca te encontro, mas quando acidentalmente, invulgarmente, nos cruzámos, todo o universo pára para ver o reencontro de duas forças opostas que se amam com a energia primitiva de uma ausência colossal.

15.4.05

Dá-me o tempo.





Deita-te em mim,
Descobre onde estás,
Escuta o silêncio,
Que o meu corpo te traz.
Não me deixes partir,
Não me deixes voar,
Como um pássaro louco
Como a espuma do mar.
Sente a força da noite
Como facas no peito,
Como estrelas caídas
Que te cobrem o leito.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
Perdidos no quarto
Sem dizermos adeus.
Adiamos a noite,
Balançamos parados,
Pela última vez
Os nossos corpos colados.
Sente a força que temos
Quando estamos assim,
Um segundo é o mundo
Que nos separa do fim.
Porque tens de partir
Quando há tanto a dizer?
Eu não sei começar,
Não te quero perder.
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
(Eu gosto das formas que tomas,
Como o toque do cristal,
E dos vidros,
dos poemas,
Da febre do metal)
Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti,
morrer por nós.
(Pedro Abrunhosa / Pedro Abrunhosa)

13.4.05

Cá te espero

Há um ano que as lágrimas não param de cair. Os meus olhos formaram agora uma nascente de água salgada que corre destemida até encontrar o mar selvagem onde desaguam.
Deixaste o teu sabor na minha boca que te deseja com uma avidez de gigante.
A única coisa que sei de ti é aquela vontade animal de voltar aquele país desmistificado e desbravado pela descrença ocidental.
Como é que alguém pode querer viver num sítio como esse? Cheio de mágoas e antigas e de erros ancestrais que não abandonam aquela terra e envenenam tudo o que lá se cria.
Só podes ser muito diferente de mim. Eu nunca abandonaria este país onde à noite ainda consigo ver as estrelas. Onde posso mergulhar no Mar, despida de tudo e deixar-me invadir pelas histórias de navegadores e marinheiros de grandiosos tempos.
Onde posso fazer amor com o passado debaixo do olhar atento da Lua Nova.
Onde cada grão de areia conta uma lenda e cada criança que nasce encarna o espírito bravio de todos nós.
Já viste o que deixaste para trás?
Eu cá te espero, de olhos postos no céu azul pintado por um Deus protector.
Enquanto não chegas, peço ao vento do Norte que te leve os meus beijos e que te acarinhe enquanto as minhas mãos agarram o espaço frio e vazio que deixaste em mim.

11.4.05

Silent all these Years

Excuse me, but can I be you for a while,
My dog won't bite if you sit real still,
I got the anti-Christ in the kitchen yellin' at me again
Yeah, I can hear that
Been saved again by the garbage truck
I got something to say you know, but nothing comes
Yes I know what you think of me, you never shut up
Yeah, I can hear that
But what if I'm a mermaid, in these jeans of his with her name still on it
Hey, but I don't care, 'cause sometimes,I said sometimes
I hear my voice, and it's been
Here, silent all these years.
So you found a girl who thinks really deep thoughts
What's so amazing about really deep thoughts
Boy, you best pray that I bleed real soon...
How's that thought for you
My scream got lost in a paper cup
You think there's a heaven where some screams have gone
I got twenty five bucks and a cracker do you think it's enough
To get us there'Cause, what if I'm a mermaid, in this jeans of yours with her name still on it
Hey, but I don't care, 'cause sometimes, I said sometime's
I hear my voice, and it's been
Here, silent all theseYears go by will I still be waiting
For someone else to understand
Years go by if I'm stripped of my beauty
And the orange clouds raining in my head
Years go by will I choke on my tears
Till finally there is nothing left
One more casualty you know, we're too easy, easy, easy
Well, I love the way we communicate
Your eyes focus on my funny lip shape,
Let's hear what you think of me now, but baby don't look up
The sky is falling
Your mother shows up in a nasty dress
It's your turn now to stand where I stand
Everybody lookin' at you, here take hold of my hand
Yeah, I can hear them.
Tori Amos

10.4.05

O meu Porto de Abrigo

Quando todo o mundo se esqueceu de mim deixando-me à deriva dos meus prórpios pensamentos, tornaste-te no meu porto seguro, deixando que ancorasse nos teus braços nos dias de maior tempestade.
Foste tu quem me ajudou a acreditar novamente que nem sempre as nuvens são sinal de chuva, mas sim de que momentos depois o Sol entraria radiante e imperioso e me secaria todos os vestigios de uma noite tempestuosa.
Ensinaste-me a ler a alma das pessoas como tu lias a minha quando olhavas no fundo dos meus olhos e encontravas o maior dos meus tormentos, ainda que escondido por baixo de um sorriso.
E agora que tudo era tão perfeito, soltaste as amarras que nos ligavam e deixaste-me seguir o rumo da minha vida sem ti.
Sei que tomaste a atitude certa, pois um barco não encontra o seu destino amarrado ao cais, por isso agradeço todo o teu esforço para me segurar quando a minha vontade era ter afundado.
És e serás sempre o meu porto de abrigo.

6.3.05

A caixinha dos charutos

Pela tua cara tu já descobriste tudo, Dina Maria. Mas vou fazer de conta que não percebi. Vou, como sempre, tirar o casaco e calçar os chinelos. Vou sentar-me, como faço todos os dias na poltrona vermelha de braços gastos a fumar o meu cachimbo com a atitude semi – apática que te põe os nervos em franja, enquanto me contas o teu dia vazio de conversas de esquina.
Pela cara de cão que fizeste quando entrei, andas a fuçar a gaveta do fundo da escrivaninha e encontraste a caixinha de charutos que guarda muito mais que pequenos canudos de ervas estrangeiras.
Não devias ter feito isso. Se não fosse o teu feitio canino e a tua curiosidade borbulhante que te consome as vísceras tinha ficado tudo bem. Nunca tinhas percebido que eu me casei contigo porque sou estupidamente responsável, e não te ia deixar no mundo com um filho que fiz numa noite de arraial ébrio. Que o meu primo Serafim, é que gostava de ti, e eu com dezoito anos gostava de conseguir ter o que os outros queriam.
Nunca tinhas descoberto que tu e o Fernando não são a minha única família, mas agora que já sabes…
Escusas é de estar para aí com o nariz como uma pistola porque descobriste uma certidão de nascimento de um filho meu com outra mulher, como se pensasses que eu não sei das tuas andanças com o Tino das carroças.
E agora o que queres fazer? Vais gritar comigo com essa tua voz de cana rachada, que há trinta anos me fura os tímpanos? Ou vais, como eu, fazer de conta que não sabes de nada?
Já não me interessa, só não digas nada ao Fernando. Eu conto-lhe um dia quando ele tiver filhos, porque assim ele vai saber o que sente um pai, que apesar de ser um pai rural também tem sentimentos. Que apesar de lhe ter dado uma coça de cinto quando o apanhei a fumar aquelas merdas esquisitas dos filmes americanos, gosto dele como se gosta do que sempre foi nosso.
Por isso, Dina Maria, fecha essa boca suja e não lhe digas nada.

4.3.05

Sinto muito

Sinto muito. Sinto muito, foi a única coisa que eu consegui dizer naquela manhã em que acordaste ao meu lado e eu não estava realmente lá.
Não queria que as coisas tomassem este rumo. Mas nem tudo acontece de acordo com a nossa vontade. Não tenho culpa que o que pense verdadeiramente estar certo não seja o que o meu coração queira sentir.
Eu sei como és. És uma pessoa fantástica que sempre deu tudo para me ver sorrir e quis tornar o meu mundo num sítio apetecível de se viver.
Juro do fundo da minha alma que se pudesse controlar os meus sentimentos te daria todo o meu amor. Mas não posso. E não te amar não é uma opção, é o único caminho que consigo seguir sem ter de andar perdida num deserto gélido de mentira e sofrimento.
Sei que por esta altura já te parti o coração em mil pedacinhos, e isso também parte em bocadinhos o meu. Parte-me o coração ter consciência que magoei uma pessoa como tu, que sempre me protegeu, e quando o meu céu se mascara de cinzas e se zanga comigo me abraça e impede que as lágrimas comecem a cair. Mas isto que está cá dentro e se manifesta por ti é um grande carinho e gratidão por gostares tanto de mim, não é amor. Por isso, desculpa, sinto muito.
E prometo-te que se nesta noite solitária, em que o mar chicoteia as rochas, nesta noite em que todo o universo inveja a Lua por ser tão grandiosa ao olhar dos Homens, se nesta noite uma estrela me inquirir vou pedir-lhe para saber amar-te.
Sinto muito, Martim. Sinto muito.

27.2.05

Obrigada

Cada vez que penso em ti descubro um sentimento novo.
O primeiro foi empatia. Apartir daí fui formando uma colecção, uma desorganizada colecção.
És uma daquelas pessoas com quem se podia ficar uma vida inteira, e, mesmo assim no último dia, naquele em que a essência da vida deixa cair a sua última gota, ainda me irias surpreender.
Tenho a certeza.

25.2.05

Sem rumo

Como um passageiro clandestino entraste na minha vida de fininho. Primeiro com visitas de médico. Depois, aos pouquinhos, colaste-te a mim como a lapa se cola à rocha, que nem com a força brutal de um mar zangado se desprende.
Não sabia quem eras, ou de onde vinhas, mas mentalizei-me que com o passar do tempo me irias dizer. E disseste. Primeiro o teu nome, depois a tua historia. Era uma história banal, triste mas banal. Igual a tantas outras que já me encontraram de olhos molhados e coração estilhaçado. Que eu, com muito jeitinho e paciência, muito devagarinho, tentava consertar. E conseguia. Foi por isso que muita gente se habituou a fazer de mim um colo para chorar. Tu não foste diferente. Chegaste de alma vazia e coração abandonado, enrolaste-te em mim e contaste tudo. Tu gostavas dela, ela não sabia. Ela era de longe e não quiseste saber. Impuseste a tua presença na vida dela, ela assustou-se mas deixou. E fez mal… Um dia bateu-te com a porta na cara como se faz a um vendedor desagradável.
Choraste, não pelo orgulho perdido, mas pela porta que nunca mais se iria abrir para ti. Desististe. Encontraste-me e eu acolhi-te.
E agora que as chagas do teu coração estão a cicatrizar tiraste as malas do armário. Estão vazias mas, mais cedo ou mais tarde vão estar à porta e tu estarás à minha espera para me dizeres adeus. Não vou discutir. Eu não pedi que viesses. És livre e eu vou deixar-te ir. Mas espero que a tua partida não seja para breve. A casa é grande e quando estou sozinha o espaço é assustador.
Embora não te diga tenho medo da solidão. È por isso que deixo que toda a gente venha ter comigo. Mas acabam sempre por partir.
Agora vou perder-te. E sei que nunca mais te vou ver. Já te conheço e sei que não gostas de viver o passado. E eu para ti sou passado.
Comigo as pessoas são intemporais. Não importa quando as vejo, vi ou verei, elas ficam sempre neste meu coração elástico que gostavas de ouvir bater enquanto adormecias. Dizias que não batia “ronronava”. Eu queria explicar-te que não era o meu coração mas os meus pulmões que sofriam com a violência do fumo do teu cigarro, mas nunca quiseste ouvir. Sempre gostaste do lado poético das coisas
Agora vais embora, e sei que vou ter saudades. Não vou ter saudades tuas, mas do lugar que ocupavas cá dentro.
Mas não te vou dizer uma só palavra. És livre e eu não tenho o direito de te impedir de seguir o teu caminho.
Vai. Eu fico com a memória de uma felicidade virtual enquanto aguardo o teu improvável regresso.

24.2.05

Estás em mim

Olá! Dizes tu como se o mundo te pertencesse e como se tivesses a certeza absoluta que estaria neste exacto momento e lugar só para olhar para ti.
Olá! E caminhas de peito aberto desfiando a vida, metido numa segurança avassaladora.
Sorris. Com um sorriso de criança que nunca cresceu escondida num corpo adulto e experiente. Mas quem te vê não imagina o que se esconde por dentro dessa muralha de pele e músculo. São medos e fragilidades.
Eu também pensava assim. Descobri-te, transparente, naquela noite de Inverno.
Chegaste molhado mate à alma. Entraste na minha casa como se também lá morasses, a pedir colo. Acolhi-te nos meus braços e enxuguei-te o corpo e os olhos. Aconcheguei-te à minha pele que ainda hoje não se libertou do teu cheiro.
Acordámos lado a lado. Tu, já recomposto, regressaste à tua personalidade soberana.
E hoje que tudo se baseia à memória duma história incompleta passas por mim com uma pose imperial que não é tua nem nunca foi.
Um dia destes vou ganhar coragem e dizer-te, do lugar mais alto que encontrar na minha alma, que desde aquela noite ficaste preso dentro de mim. Que uma metade tua cresce cá dentro e me preenche nas noites de chuva em que a cama é fria e vazia de ti.

23.2.05

O Amor Dói

Eu queria dizer-te, a sério que queria. Mas cada vez que te vejo a minha alma sofre um arrepio que me impede de qualquer manifestação vocal.
E se eu te disser podias começar a tratar-me de forma diferente, ou até afastares-te e isso era pior que morrer.
Hoje senti toda a tua presença ir muito mais além de tudo o que existe. Senti-te no preplexo da minha alma acariciando a base da minha existência.
O que sinto é muito profundo, completo e inexplicável. Cresce a cada dia que passa e a cada momento se transforma em algo mais puro e transcendente.
É algo mágico, fluído como a respiração e tão grande que quase em mim não cabe.
Tenho vontade de sair para a rua e gritar o teu nome, para ter a certeza que és real, e não fruto de uma imaginação que não me pertence mas que se apoderou de mim.
Às vezes a euforia é tanta que o meu corpo sofre uma descarga de energia que tenho de gastar instantaneamente, antes que esta me consuma a mim. Outras, sou envolvida por uma melancolia tão negra e compacta que dou por mim num estúpido monólogo de auto racionalização. Parece que perco toda a esperança…Mas não posso. A esperança é tudo o que tenho para além deste amor gigantesco, que, cada vez mais, penso ser inconcretizável.
Dói muito ter alguém cá dentro alojado de forma involuntária. Dói muito acordar todas as manhas e perceber que não me pertences, nem sequer em pensamento. Dói muito deitar-me todas as noites depois da frustração diária que é o não te ter. Mas parece que a dor é a única coisa que me dás… inconscientemente. Mas vou guardar este amor para mim. Vou protegê-lo e não vou deixar que esta dor o corrompa. E quando for muito velhinha, vou pegar nele e oferecê-lo a alguém que permita que ele não acabe. E depois disto, finalmente morrereiem paz.